A FELICIDADE É UM DIREITO OU UMA CONQUISTA?*

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Para Epicuro, a busca da felicidade era uma procura pessoal. Pensadores modernos, em contrapartida, tendem a considera-la um projeto coletivo. Sem planejamento governamental, recursos econômicos e pesquisa científica, ninguém conseguirá ir longe na sua busca da felicidade.

No final do século XVIII, o utilitarista Bentham declarou que o bem supremo é “a maior felicidade para o maior número de pessoas”. Ele concluiu que o único objetivo meritório do Estado, do mercado e da comunidade científica consistia em incrementar a felicidade global. Políticos deveriam assegurar a paz, homens de negócios deveriam estimular a prosperidade, e aos estudiosos caberia estudar a natureza – não para a glória maior de um rei, de um país ou um deus, e sim para que você e eu possamos usufruir de uma vida mais feliz.

Em 1776, os Pais Fundadores dos Estados Unidos estabeleceram que o direito à busca pela felicidade era um dos três direitos do homem, ao lado do direito à vida e do direito à liberdade. No entanto, é importante observar que a Declaração de Independência dos Estados Unidos garantia o direito de busca da felicidade, e não o direito à felicidade em si. Crucialmente, Thomas Jefferson não responsabilizou o Estado pela felicidade de seus cidadãos. Todavia, nas últimas décadas a situação mudou, e a visão de Bentham tem sido levada mais a sério. Cada vez mais se acredita que os imensos sistemas estabelecidos há mais de um século para fortalecer a nação deveriam efetivamente prover felicidade e bem-estar aos cidadãos como indivíduos. Não estamos aqui para servir ao Estado: ele é quem deve nos servir.

O direito de buscar a felicidade, concebido na origem como uma restrição ao poder do Estado, imperceptivelmente ganhou forma de direito à felicidade – como se os seres humanos tivessem o direito natural de serem felizes, e tudo o que nos faça ficar insatisfeitos seria uma violação de nossos direitos mais básicos, de modo que o Estado deveria fazer algo a respeito. Agora as pessoas não querem produzir a própria felicidade: querem recebê-la pronta e em casa. Mas ser feliz exige trabalho duro, não é algo que acontece espontaneamente ou com facilidade.

No Peru, no Haiti e em Gana, onde grassam a pobreza e a instabilidade política, menos de 5 pessoas em cada 100 mil cometem suicídio a cada ano. Em países ricos e pacíficos, como Suíça, França, Japão e Nova Zelândia, mais de 10 em cada 100 mil pessoas tiram a própria vida anualmente. Na Coreia do Sul, a taxa de suicídio alcança alarmantes 36 casos anuais para cada 100 mil habitantes. A conclusão é que a felicidade depende mais de expectativas que de condições objetivas, e essa é a maior falha da evolução: por gerações incontáveis, nosso sistema bioquímico adaptou-se à necessidade de aumentar nossas probabilidades de sobrevivência e reprodução, não de promover nossa felicidade.

Além disso, a reação mais comum da mente humana a um prazer não é satisfação, e sim o anseio por mais – o sucesso alimenta o desejo. Como consequência, o que algumas pessoas esperam alcançar estudando, trabalhando ou criando uma família, outras tentam obter muito mais facilmente por meio do uso de drogas e remédios: para o rolo compressor da pós-modernidade, felicidade é prazer e a cada dia diminui nossa tolerância em relação às sensações que não oferecem prazer e aumenta nossa ânsia por sensações que o provocam.

Para alcançar a felicidade real, os humanos têm de desacelerar, e não acelerar, em sua busca por sensações prazerosas. Por exemplo: Buda sugeriu que reduzíssemos nosso anseio por sensações prazerosas e não conferíssemos a ela o controle de nossa vida. Segundo Buda, podemos treinar nossas mentes a observar cuidadosamente como surgem e passam todas as sensações. Quando a mente aprende a enxergar suas sensações tais como elas são – fenômenos efêmeros e inexpressivos – perdemos o interesse em persegui-las, e nos tornamos finalmente aptos para experimentar uma felicidade mais verdadeira e duradoura, não como um direito, mas como uma conquista de nossa disciplina.

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*Adaptado de Yuval Noah Harari. Homo Deus – uma breve história do amanhã. Ed. Companhia das Letras (2015)

 

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1 COMENTÁRIO

  1. Felicidade não existe a não ser que baixemos muito esse conceito.
    Se felicidade é simplesmente ter uma vida satisfatória então eu e bilhões de pessoas somos felizes.

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