A MENTALIDADE DE VITIMIZAÇÃO

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A Mentalidade de Vitimização é um traço de personalidade adquirido onde o indivíduo aprende que considerar-se vítima das circunstâncias pode lhe angariar algum tipo de lucro ou simpatia – mesmo quando essas circunstâncias não possuem um papel causal evidente sobre seu infortúnio ou decorreram de suas próprias escolhas.

Em alguns casos, o portador da Mentalidade de Vitimização foi, de fato, vítima de alguma armação ou injustiça (sim, coisas ruins acontecem o tempo todo e o mundo está cheio de vítimas reais de pessoas más e catástrofes horríveis).

Ademais, sentir um pouco de pena de si mesmo frente a um acontecimento que contrariou suas expectativas é completamente normal, mas isso não necessariamente implica em que aquele evento deveria produzir uma reação autovitimizante. A opção por agir assim é sempre individual.

A Mentalidade de Vitimização pode ser detectada em diferentes comportamentos, tais como:

– Culpar outros por uma situação que, muitas vezes, dependeu única e exclusivamente de ações do próprio indivíduo. (“Se eu vivesse em outra cidade ou outro país, certamente seria bem sucedido”). As autovítimas nunca são capazes de perceber ou aceitar que o que estão vivendo pode ser resultado de uma cadeia de eventos que dependeu de suas próprias escolhas voluntárias.

– Incapacidade de assumir a responsabilidade pelas consequências de suas próprias ações ou de ações nas quais sua participação foi essencial. (“Não foi culpa minha!” ou “Toda vez que recebo um dinheiro, aparece uma conta para pagar”, como se a conta tivesse sido enviada por um alienígena de um universo paralelo diretamente para a caixa de correio dela).

– Estados de paranoia e hipervigilância com a possibilidade de que alguém está preparando uma “armadilha” (“Meus inimigos estão em toda parte!”, ou “Quando tudo vai bem, eu sinto logo que alguma coisa ruim vai acontecer”), ou alguém encontra-se em dívida com ela (“Sempre fiz muito mais por você do que você por mim!”).

– Detectar intenções negativas de outras pessoas – sendo que essas intenções não existem. (“Fulano de tal vive na torcida para que eu me dê mal!”).

– Acreditar que outras pessoas são geralmente ou fundamentalmente mais sortudas e felizes (“Por que tudo de ruim só acontece comigo?” ou “Nada de bom acontece na minha vida…”).

Pessoas com Mentalidade de Vitimização são bastante hábeis em desenvolver argumentos sofisticados para apoiar seus comportamentos, e utilizam esses argumentos para convencer todos à sua volta – e, em especial, a si mesmas.

Felizmente, essas pessoas são fáceis de serem percebidas: elas expressam uma predisposição incrível para salientar os aspectos negativos de tudo. Completamente absortas em si mesmas, elas sempre têm a dor mais intensa, a saúde mais frágil, a doença mais grave, o emprego mais desgastante, as dívidas mais urgentes, o relacionamento mais angustiado e a vida mais difícil de todas.

Elas são teimosas, pessimistas, dependentes, rancorosas, ingratas, apaixonadas por problemas e excessivamente carentes. Estão sempre na defensiva, classificando as pessoas como “boas” e “más”, e são incapazes de assumir qualquer risco.

Quando conversamos com elas, em geral ouvimos um “Não posso”, “Não consigo”, “Não sou capaz”, “Não tive escolha”, “Não está sob meu controle”, “Está além das minhas forças”, “Fulano me tira do sério”, “Sou sempre eu quem tem que fazer o sacrifício” ou “Deixei de viver minha vida para me dedicar a você”.

Sempre que deparar com colocações assim, ligue seu sistema de alerta: você pode estar lidando com um Autovitimizante compulsivo.

Uma vez que a Mentalidade de Vitimização é um traço primariamente aprendido e não inato, é possível mudá-lo, mas isso dependerá de um tipo de energia resiliente que a pessoa autovitimizante raramente possui. Por isso, esse comportamento costuma a se tornar crônico e intratável.

Então como lidar com esse abacaxi? É o seguinte:

Essas são pessoas com quem você não pode contar: elas nunca assumirão qualquer responsabilidade ou encargo – nem por si, menos ainda por você. Por mais que você tente, você não irá transformar este cidadão em uma pessoa autônoma e soberana de sua vida. Esqueça. E partir para o confronto apontando-lhe as falhas não produzirá qualquer avanço, exceto o fato de você ser mudado do grupo dos “amigos” para o grupo dos “inimigos” (“Achei que você seria diferente, mas você é igual a todo mundo: você não me entende!”).

Portanto, o melhor a fazer, em todos os casos, é manter-se longe de indivíduos assim. Essas pessoas apresentam grande propensão para serem manipuladoras, raivosas e vingativas a partir de suas neuroses auto-induzidas. Todo cuidado com elas é pouco.

Se quiser andar uma milha a mais, recomende uma terapia com um psicólogo. Na sequência, valorize seu tempo, cuide de excluir e bloquear a criatura em suas redes sociais e distancie-se o máximo possível. Que aquela infecção mental ambulante vá procurar plateia em outra freguesia.

Caso você insista em permanecer por perto, movido por algum espírito benevolente, fique sabendo que você fatalmente se tornará a vítima da autovítima, e será sugado pelo buraco negro das carências tirânicas dela. Quando isso acontecer, não reclame: você foi avisado.

 

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