BLINDANDO SEU CÉREBRO CONTRA O ESTRESSE

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Lembra-se da sua infância, quando você e seus irmãos e seus primos e metade da sua rua inventavam de andar se equilibrando sobre um muro e alguém ameaçava lhe empurrar lá de cima? (Sim, crianças são capazes desse tipo de terrorismo). Consegue recordar o medo de pisar em falso na beirada e despencar no chão feito uma jaca madura? Aquele sentimento angustiante, lá na infância, provavelmente é uma das primeiras memórias de uma emoção que hoje lhe é tão familiar: o Estresse.

Quando estamos estressados, nos sentimos em desequilíbrio. Os pensamentos correm embaralhados neurotizando toda sorte de desfechos negativos. O coração acelera, a respiração se torna mais curta, os músculos entesam. Ficar sentado incomoda. Ficar de pé incomoda. Você liga a TV e consome qualquer programa aleatório. Abre a geladeira e faz o mesmo, sempre com aquele olhar de quem está vendo o mundo sem enxergá-lo a um palmo de distância. Soa familiar?

Você pode até querer se livrar do estresse, mas isso é impossível: existe toda uma gama de reações fisiológicas programadas nas moléculas produzidas na sua hipófise, na tireoide, nas suprarrenais e na sua amídala cerebral (falaremos mais sobre ela adiante). Ainda que essa programação possa ser modulada, sua linguagem é inata e inegociável.

O estresse faz parte de sua codificação genética. Há 6,5 milhões de anos, os pequenos mamíferos tranquilos que não se importavam com a ameaça de predadores em potencial não produziram uma linhagem exatamente bem sucedida. Eles foram devorados.

Eu e você somos descendentes dos outros, daqueles tataranetos de répteis terapsídeos nervosos, rápidos, com dentes afiados e hábitos noturnos que vagavam por aí fuçando o mundo como pinchers famintos, tremendo em um estado de alerta permanente.

Apesar dessa maldição evolucionária que nos tornou herdeiros de um desassossego incessante, é possível harmonizar a maneira como sua mente lida com a adversidade, blindando-a contra o estresse.

UMA CABEÇA A MIL

O primeiro passo consiste em compreender a resposta natural do corpo – e do cérebro em particular – ao estresse.

Seu cérebro possui algo chamado de neuroplasticidade. Isso significa que ele pode ser modificado pela experiência e pela prática repetida de novas maneiras de pensar. Por meio da neuroplasticidade, é possível alterar o padrão de funcionamento de seus neurônios.

Tudo começa quando as amídalas cerebrais percebem alguma situação de perigo. Mas não confunda essas amídalas com as outras amídalas: temos duas amídalas no início da garganta que são acúmulos de tecidos linfoides relacionadas à defesa do organismo. Não estamos falando dessas, mas das amídalas cerebrais, duas estruturas em formato de ameixas localizadas na base do seu cérebro, uma de cada lado.

As amídalas cerebrais são grupos de neurônios com cerca de 3 cm de diâmetro e fazem parte do sistema límbico. Elas têm um papel importantíssimo na regulação do comportamento sexual, da agressividade, das respostas emocionais e da reatividade a estímulos biologicamente relevantes.

Assim que as amídalas percebem uma ameaça, elas reagem coordenando a liberação de uma cascata de neurotransmissores e hormônios como adrenalina, norepinefrina e cortisol, preparando seu corpo para lutar ou fugir. Se seu cérebro entender que não é possível lutar ou fugir do agressor, o sistema parassimpático – um ramo do seu sistema nervoso autônomo – pode gerar uma resposta alternativa: o congelamento.

Você já viu um gambá dando de cara com os faróis do seu carro na estrada à noite? Se ele sente que não pode correr ou lutar, o bicho simplesmente tomba de lado fingindo-se de morto. Essa é uma resposta-padrão de congelamento. O congelamento é uma adaptação evolutiva que pode ser útil para sobreviver a uma ameaça iminente, mas é problemático quando lidamos com estressores mais complexos e interpessoais.

Quando a amídala sequestra o cérebro, a agressividade que ela desencadeia pode levar você a fazer e dizer coisas das quais se arrependerá profundamente. Para encontrar paz e felicidade em seu trabalho, em sua vida e nos seus sentimentos, você precisa aprender a voltar aos trilhos sempre que as amídalas sequestrarem sua consciência.

PAGANDO O RESGATE DOS TRILHOS

Para recuperar sua estabilidade emocional, você deve acionar um outro território do cérebro: o Córtex Pré-Frontal.

O Córtex Pré-Frontal está localizado logo atrás da sua testa. Ele é o CEO (Chief of Executive Officer) do Sistema Nervoso Central. As informações chegam até esta região de um modo mais lento que nas amídalas, mas ele compensa o retardo com uma vantagem: após ponderar sobre o evento (coisa que as amídalas encapetadas nunca fazem), o Córtex Pré-Frontal pode enviar uma mensagem de volta dizendo que está tudo bem, que a cena está sob controle agora, e que você não precisa lutar, fugir ou congelar-se como um gambá no meio do asfalto.

5 MANEIRAS DE REDIRECIONAR SUA RESPOSTA AO ESTRESSE

No clímax do estresse, o Córtex Pré-Frontal é capaz de se comunicar com outras partes do cérebro, elaborando uma resposta mais eficaz e racional ao estímulo estressor. Mas, para que isso ocorra, você terá que colaborar conscientemente.

Quer saber como? Vamos lá:

  1. VÁ COM CALMA. Aprenda a desacelerar. Quando esbarrar com um acontecimento estressante, respire lentamente e permita que o Córtex Pré-Frontal tenha tempo de analisar o quadro. Isso pode ser útil quando alguém pisa no seu calo, ou você recebe críticas ácidas em seu trabalho, ou quando está aguardando resultados de algum exame médico, por exemplo.
  1. MANTENHA A ATENÇÃO PLENA. Aceite o que está ocorrendo como se você fosse um observador à distância. Reflita sobre o contexto por alguns segundos: “Ok, é isso que está acontecendo: eu estou ficando com raiva agora e a vontade que tenho é bater sobre a mesa e dizer algumas boas verdades. Mas será que essa seria a coisa mais certa a fazer neste momento? Agir assim iria me ajudar de alguma maneira?”. A Atenção Plena funciona melhor quando você se torna um praticante habitual de meditação. Estudos neurológicos mostram que pessoas que meditam regularmente apresentam um diálogo melhor entre as amídalas e o Córtex Pré-Frontal quando expostas a um estresse emocional. Se quiser saber mais sobre como começar a meditar, recomendo estudar o artigo deste link.
  1. ENCONTRE SEU SENSO DE CONTROLE. Seu corpo e sua mente ficam mais estressados quando se deparam com eventos imprevisíveis e incontroláveis. Então procure analisar a circunstância e descobrir quais aspectos dela você pode antecipar e controlar. Direcione sua energia executora para estes aspectos – e deixe as partes imprevisíveis e incontroláveis a cargo da Atenção Plena.
  1. AMPLIE SUA VISÃO. Quando as amídalas disparam a ansiedade e toda aquela carga de emoções negativas, isso imediatamente estreita sua perspectiva mental. Você se torna menos eficaz para enxergar, monitorar e lidar com a ameaça que se apresenta. Como resultado, sua mente se fecha para os aspectos positivos da sua vida e todas aquelas maneiras criativas que você teria para resolver o problema. Ampliar sua visão é útil para reprogramar a bioquímica cerebral e decidir onde investir a energia para dominar o evento. Pondere um instante: Quantos outros estresses você já sofreu até aqui? E de quantos escapou com vida até hoje?
  1. MODULE SUA MENTE. Não perca tempo tentando evitar o estresse: coloque seu foco sobre o quê você poderia ganhar com ele, quais forças e habilidades está tendo a chance de desenvolver para se tornar uma pessoa melhor. Ao traçar uma rota para o aperfeiçoamento pessoal, você torna o estresse apenas uma parte do caminho e se capacita para empregar mais recursos para avançar. Um problema não é apenas um problema: ele também é um desafio e uma oportunidade de crescimento para que você aprimore sua capacidade de equilíbrio (ter calma para fazer as coisas), eficiência (fazer certo as coisas) e eficácia (fazer as coisas certas).

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