A MULHER-ARTEMIS

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Ártemis, conhecida pelos romanos como Diana, era a deusa da caça e da Lua. Filha de Zeus com a deusa Leto, gêmea de Apolo e meia-irmã de Atena, destacava-se por sua beleza, identificação com o selvagem e com a natureza. Prática, atlética e aventureira, Ártemis ama a cultura física, a solitude, a vida ao ar livre e os animais.

Ártemis não oferecia misericórdia a qualquer que a ofendesse ou invadisse seu espaço. Sua agressividade era tamanha que até mesmo seu grande amor, Órion, foi morto por ela – uma casualidade de sua natureza competitiva.

ÁRTEMIS: UMA FORÇA DA NATUREZA

A mulher-Ártemis se caracteriza por um espírito aguerrido, autossuficiente e independente, capaz de perseguir seus objetivos nos terrenos que ela mesma determina. O arquétipo de deusa virgem sugere uma mulher imune ao amor – Ártemis nunca foi raptada ou violentada (como Perséfone e Deméter) e nunca se casou.

A ira de Ártemis só é comparável a de Hera, com uma diferença crucial: enquanto uma mulher-Hera direciona sua ira para outras mulheres, Ártemis direciona sua fúria impiedosa contra os homens em geral. Ela os considera vis por depreciarem-na ou não valorizarem seus princípios mais valiosos. Esse padrão só será mudado quando Ártemis se confrontar diretamente com seu próprio potencial destrutivo. Ela deve enxergar este aspecto de sua personalidade e controlá-lo antes que ele a consuma e destrua seus relacionamentos com as pessoas que ama – um processo que exigirá dela grande coragem e um imenso esforço.

A mulher-Ártemis gosta de dizer que é capaz de tomar conta de si. Ela se sente plena sem a necessidade de um parceiro, e seu senso de valor baseia-se em sua própria capacidade, na atitude indomável que a faz seguir seus interesses, sem se importar com a aprovação de outras pessoas – especialmente homens.

O arco de Ártemis simboliza sua capacidade de acertar com precisão alvos próximos e distantes. Uma mulher-Ártemis possui uma capacidade extraordinária de concentração. Por ser uma caçadora-nata, ela tem perseverança para vencer quaisquer obstáculos à sua frente.

Ao contrário de várias outras deusas que foram vitimizadas, Ártemis nunca sofreu. Contudo, ela foi inclemente com aqueles que a ofenderam ou ameaçaram. Se necessário, uma Mulher-Ártemis não hesitará causar sofrimento em outras pessoas para evitar a dor em si mesma.

A MULHER-ARTEMIS E SEUS PAIS

Apesar dos ciúmes de Hera – esposa oficial de Zeus -, Ártemis recebeu grande carinho e reforço positivo de seu pai desde pequena. Zeus permitiu que ela escolhesse por si só suas armas, suas roupas, suas companhias (as ninfas) e o local onde gostaria de viver.

Por repetidas vezes, Ártemis correu em socorro de sua mãe, protegendo vigorosamente Leto dos perigos do mundo. Nenhuma outra deusa é conhecida por tamanha conexão com sua progenitora. Esta característica de lealdade tornou Ártemis uma deusa bastante identificada com a proteção de mulheres e crianças – um traço adotado por vários movimentos feministas -, mas na maioria das vezes o relacionamento de Ártemis com sua mãe oculta um conflito difícil de ser resolvido.

Quando uma mulher-Ártemis cresce em um lar menos tradicional, onde pai e mãe dividem as tarefas domésticas e os cuidados com os filhos, e cada um tem sua própria carreira, o arquétipo cresce em contato com qualidades compatíveis com a maternidade e o desenvolvimento de relacionamentos íntimos, e isso poderia amenizar o lado guerreiro e independente da deusa. Lamentavelmente, não acontece sempre assim.

Quando a mulher-Ártemis possui uma mãe atenciosa e um pai que oferece um grande suporte para seu jeito de ser, que compartilha com ela seus interesses e a encoraja incondicionalmente, o arquétipo se desenvolve em sua plenitude.

Em todos os casos, os problemas surgem quando os pais criticam ou rejeitam o jeito Ártemis da filha. A mãe e o pai talvez anseiem por uma menina mais dócil, submissa, e se sentirão desapontados com a natureza selvagem da filha, resultando em comportamentos oposicionais e atritos frequentes. As consequências disso podem variar em intensidade e severidade, mas tendem a seguir um padrão bem conhecido, resultando em uma mulher que se sente em conflito quanto às suas competências e frequentemente sabota a si mesma.

Apesar de, na superfície, a mulher-Ártemis ter sido bem sucedida em resistir às tentativas de seu pai em limitar suas aspirações, ela incorporou a atitude crítica dele em sua mente. No fundo, ela luta com a sensação de não ser boa o suficiente, hesita quando novas oportunidades aparecem, realiza menos do que é capaz e, mesmo quando obtém sucesso, se sente inadequada e não merecedora. As atitudes negativas da mãe em relação a ela têm um peso menor, pois é a figura paterna que carrega o maior sentido de autoridade.

O grande conflito da mulher-Ártemis com sua mãe reside no fato dela achar a passividade da mãe um sinal de fraqueza. A falta de respeito pela mãe reforça as qualidades “virginais” da mulher-Ártemis: determinada a não repetir a figura materna, ela suprime seus sentimentos de dependência, evita expressar vulnerabilidade e se empenha ser o máximo autossuficiente possível.

Infelizmente, ao rejeitar essa identificação com mãe, Ártemis se descobre rejeitando tudo que é considerado feminino: a suavidade, a receptividade, o acolhimento terno, o casamento e a maternidade.

É bem fácil reconhecer uma Ártemis ainda na infância: ela é uma competidora natural, com grande desejo de vencer, esforçando-se com perseverança até o limite de sua resistência. Gosta de acampar, escalar, correr, fazer fogueiras, explorar a natureza, e rejeita boa parte das roupas e acessórios femininos. Quer ver uma típica Ártemis clássica? Procure por uma menina apaixonada por cavalos.

DILEMAS, RELACIONAMENTO E SEXO

Apesar de não se destacar muito no mundo moderno – a mulher-Ártemis não se sente verdadeiramente à vontade na cidade, com seu ritmo acelerado e seus valores de ascensão social -, o trabalho tem um significado profundo: ela não pensa duas vezes em sacrificar suas raízes quando isso é necessário para atingir uma meta.

Ártemis vai onde quer e não se importa em ter um “porto seguro” – e nisso estão inclusos filhos e marido. Ela pode parecer tímida, esquiva e reservada e, para suprir a falta de intimidade e compromisso, procura um envolvimento de “irmã” com as mulheres e os homens de seu círculo de amizades.

A energia da mulher-Ártemis não é mental, mas provém de seu corpo ágil e atlético. Ela necessita de desafios e interesses que sejam pessoalmente recompensadores. Do contrário, irá sentir-se frustrada, angustiada e deprimida. Tentar adaptá-la à vida ao lar é a tortura suprema. Considerado seu potencial destrutivo, não surpreende perceber que a identificação inconsciente de uma mulher com este arquétipo também pode resultar em conflitos danosos e grande sofrimento para as pessoas à sua volta.

O distanciamento emocional é bem característico do arquétipo Ártemis. Sua desatenção com as pessoas retira-lhe a capacidade de empatia, e aqueles que gostam dela se sentem insignificantes e excluídos, retornando esse sentimento na forma de dor e raiva contra as atitudes da deusa.

A primeira chaga de Ártemis é esta solidão por ser relegada, psicológica e às vezes literalmente, às margens da sociedade: foi-lhe negada qualquer verdadeira identidade enquanto mulher. Seu amor ardente pela liberdade e sua atitude mental independente tendem a tornar particularmente difícil para ela aceitar os estilos de vida de mãe, esposa ou profissional ambiciosa.

Outra chaga de Ártemis jaz na sua falta de misericórdia: uma mulher-Ártemis julga as ações dos outros de um modo “oito ou oitenta”. Para ela, não existem meios termos negociáveis, e por isso se sente plenamente justificada quando retalia ou pune. Em razão de toda essa energia física e da intensa vontade de fazer coisas, os homens costumam se mostrar um tanto apreensivos diante dela.

A sexualidade de uma mulher-Ártemis se desenvolve como parte de sua tendência para explorar novas aventuras, e, em muitos aspectos, lembra bastante o comportamento sexual de um homem: o sexo é uma atividade recreacional, uma mera dimensão extra da amizade. O estabelecimento de intimidades é secundário, mas quando uma mulher-Ártemis está profundamente em contato com seu verdadeiro eros, sua paixão é selvagem e feroz.

A maternidade não traz um senso de plenitude para a Mulher-Ártemis. Engravidar e amamentar não representam o clímax de sua vida. Algumas inclusive chegam ao ponto de achar a gestação um período repugnante, que retira dela a liberdade e o vigor necessários para explorar o mundo. Mas elas gostam de crianças e, quando têm filhos, tendem a ser boas mães, estimulando a independência de seus pequenos. O problema surge quando um filhote de Ártemis não demonstra a mesma impetuosidade da mãe: ele ou ela enfrentará uma infância difícil, passando por longos anos de rejeição e críticas.

ÁRTEMIS E OS HOMENS

Ártemis tinha um irmão gêmeo, Apolo. Ele era sua contraparte masculina. Apolo cuidava das cidades; Ártemis cuidava da natureza selvagem. Apolo era o deus do Sol; Ártemis, da Lua. Entretanto, assim como sua irmã, Apolo era andrógino, e ambos compartilhavam muitas qualidades e interesses geralmente associados ao sexo oposto.

Não surpreende que seja este o modelo de homem que uma mulher-Ártemis busca para ser seu amigo, colega ou companheiro: ela se sente atraída por homens cujas personalidades possuem uma tendência para criações artísticas ou estão envolvidos em profissões que consistem em ajudar outras pessoas.

Uma mulher-Ártemis não se encanta com dominadores estilo “Mim Tarzan, você Jane”, tampouco está interessada em laços com vieses maternais. Ela evita homens que tentam ser o centro de sua vida, mas tem uma queda por aventureiros, atletas, exploradores e competidores que amam a natureza. Seu desejo é preservar a qualquer custo sua plena e desimpedida independência.

O relacionamento Ártermis-Apolo pode resultar em um casamento assexuado, porém com intenso companheirismo. Ela poderá morar ou mesmo se casar com homens homo ou bissexuais, por exemplo, e valorizar a companhia e a independência que esse relacionamento traz – ou manter uma amizade fraternal com seu ex que abandonou o casamento para juntar-se a uma mulher de estilo diferente.

Contudo, nem sempre é fácil para a mulher-Ártemis de hoje encontrar um homem independente e terno que saiba apreciar a sua forte personalidade e amar o seu lado selvagem. Sua autoestima foi ferida demais e ela pode se tornar arisca, defensiva e mais do que um pouco tímida e fechada em si mesma. Sem saber, tenderá a afastar os homens quando eles buscam a sua intimidade.

Para que uma mulher-Ártemis desenvolva o elemento sexual em seu relacionamento, ela deverá permitir que outra deusa – Afrodite – emerja. E para que este compromisso seja monogâmico, outra deusa – Hera – também deverá ser resgatada. Sem a participação destas duas deusas complementares, o casamento de uma mulher-Ártemis com um homem-Apolo logo se torna uma relação de irmã-irmão.

Além de se interessar por homens que considera iguais a ela, uma mulher-Ártemis também aprecia homens com natureza acolhedora, capazes de tornar o lar um refúgio, oferecendo-lhe empatia e sensibilidade. Será este homem que irá propor filhos e jamais sabotará as aspirações dela, ou ridicularizará seus valores ou tecerá críticas sobre sua carreira.

Eventualmente, a mulher-Ártemis poderá se apaixonar por um homem forte e decidido. Incapaz de dominar sua natureza competitiva, ela irá competir com esse homem, tentará dominá-lo, e um clima de guerra logo se estabelecerá. Se ambos forem incapazes de cessar a competição, o encanto inicial e o amor serão rapidamente drenados do relacionamento.

O fato é que, enquanto um homem representar para ela um tipo de “caça’, a mulher-Ártemis manterá seu interesse por ele. Mas bastará ele se aproximar emocionalmente – ou tornar-se dependente dela – e a excitação da caça desaparecerá; ela o achará um intruso de seus domínios, um alvo fraco, e perderá a vontade de possuí-lo. Como resultado desse mecanismo de defesa, uma mulher-Ártemis costuma ter uma série de relacionamentos que evoluem bem desde que seja mantida uma distância emocional considerável e o homem não esteja sempre disponível.

A chaga de Ártemis é representada pela a necessidade de desenvolver compaixão e empatia, algo que pode ver com a maturidade. Muitas mulheres-Ártemis atingem a idade adulta com um alto nível de autoconfiança e a certeza de serem invulneráveis.

Para vencer essas limitações, a mulher-Ártemis deve desenvolver seu potencial receptivo, o lado inconsciente de docilidade nos relacionamentos. Ela deve aprender a aceitar sua vulnerabilidade, o amor e o desejo de cuidar profundamente de outra pessoa. Isto pode acontecer por meio de um vínculo emocional com outro homem, outra mulher ou tendo filhos.

Um homem apaixonado por uma mulher-Ártemis – e que não deseja deixá-la – deverá ter paciência até que ela seja capaz de conviver com a Afrodite dentro de si.

 

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