DOS MACHOS ALFA AOS HOMENS HOMEM

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Dizem que a Masculinidade divide os homens em dois grupos: de um lado, os Alfas, cheios de poderes, dinheiro e mulheres, dominando e intimidando a tudo e a todos através de sua força física. Eles seriam os caras “fodas”, no alto da montanha, os mandachuvas, os “homens machos de verdade”. Do outro lado, existiriam os Betas, fracos, submissos, subordinados, sensíveis, sentimentais, que as mulheres carinhosa e maternalmente se referem como “uma boa pessoa”, o “Mr. Nice Guy”, os “Do Bem”, etc.

A diferenciação entre Alfas e Betas vem da observação de outros animais sociais como chimpanzés e lobos. Apesar de divertida, ela pinta a psique masculina de preto ou branco, sem direito a camadas ou tons intermediários. Isso não apenas é um reducionismo da multi-dimensionalidade do Masculino como também turva completamente o foco DO QUE REALMENTE nos torna plenos e, de certa maneira, atraentes para as mulheres.

Se aceitarmos que existem apenas estas duas categorias de Masculinidade, Alfas e Betas, estaremos conduzindo uma imensa manada de palermas para um caminho tortuoso de frustração e insucesso, transformando o relacionamento Homem x Mulher em uma contenda de crianças.

Que tal você se perguntar: será que essa merda de Alfa tem alguma vantagem para você? Ela diz algo sobre como ser sábio, ou honrado ou desejável?

O QUE SIGNIFICA SER “DOMINANTE”?

Utilizando estudos comportamentais, pesquisadores observaram que, em comparação às descrições de atitudes passivas, homens com características dominantes provocavam uma resposta de atração sexual de maior intensidade nas mulheres. Fato.

Entretanto, pesquisas subsequentes mostraram que também era necessário um determinado conjunto de adjetivos (ou qualidades) para produzir essa resposta. Ainda que ser “Dominante” fosse algo positivo, a mesma resposta de atração não ocorria quando as mulheres eram confrontadas com percepções como “agressivo” e “dominador”.

Do ponto de vista feminino, a característica Dominante como fator de atração sexual perde de goleada para duas outras. Em uma entrevista com mulheres universitárias sobre “qual característica seria a mais importante para formar um par romântico com você?”, o traço Dominante foi apontado como relevante por apenas 2% delas. As qualidades vencedoras foram Autoconfiança (74%) e Assertividade (48%) – ambas manifestações de Masculinidade, e não apenas dominância.

Quando a pergunta foi repetida com relação às qualidades não-dominantes, aquelas consideradas mais atraentes pelas mulheres foram “Descontração” (68%) e “Sensibilidade” (76%). É, ser sensível é uma merda, mas tem lá suas vantagens… De um modo até óbvio, simplesmente NENHUMA das entrevistadas citou “Submissão” ou “Subserviência” como qualidades ideais para seu par romântico. “Calado” ganhou 4% dos votos e “Tímido” ficou com tímidos 2% das preferências – então eu não investiria nisso, ok?

A atitude Dominante pode se manifestar de várias formas: um sujeito Dominante mas exigente, solicitante, violento e egocêntrico NÃO é nem de longe um partido atraente. Traços de Dominante manifestados como qualidades de liderança segura são os mais desejáveis. Isso significa que Sensibilidade e Assertividade, ao contrário do que meus testículos me informaram por décadas, não são coisas opostas. Na verdade, a combinação de Sensibilidade e Assertividade forma o sanduíche mais apreciado por elas.

Não basta você treinar aquelas poses e caras ridículas de Dominante Alfa, porque essa atitude isoladamente não produzirá o efeito que você espera. Para funcionar, é preciso que o pacote venha embrulhado em comportamentos proativos pró-sociais, tais como Agradabilidade, Generosidade e Altruísmo.

Do ponto de vista feminino, a Dominância só se torna atraente em competições exclusivamente masculinas. Fora destas situações bem específicas, demonstrações de agressividade sugerem que o sujeito a qualquer momento poderá explodir com sua ira violenta contra ela também – e esse não é exatamente o ninho de aconchego que elas querem.

Em outras palavras: você pode até chutar a cabeça do zagueiro do time adversário para fora do corpo no domingo, mas na segunda-feira você deve ser genuinamente amigável e divertido com seus colegas de trabalho. E não adianta fingir forçando-se parecer sensível: elas percebem, amigo. Mesmo quando você não percebe que elas percebem, elas estão percebendo. Percebe?

O COMPORTAMENTO ALFA E O VIÉS DE AMOSTRAGEM

Dentro do universo de sua Masculinidade, ser capaz de distinguir os diferentes tons de Dominância e como eles interagem com a Sensibilidade não é importante apenas para compreender a atração sexual, mas também apresenta profundas implicações no entendimento do status social na nossa espécie.

Ainda que os perfis psicológicos afirmem que mulheres são mais atraídas por Homens Dominantes ao invés de Homens Dominadores – tanto para casos curtos quanto para relacionamentos de longo prazo -, é verdade que algumas delas preferem sempre o idiota desgraçado coração de gelo dominador insensível “uma-metida-e-fui-embora”.

Mulheres com gosto por homens Dominadores em geral cresceram em lares instáveis com pouco ou nenhum suporte familiar, tendem a se sentir inseguras para estabelecer vínculos e apresentam atitudes sexistas hostis para com suas companheiras de gênero.

Ainda que seja possível comer essas mulheres tendo uma atitude 100% Alfa-feladaputa, o tipo de presa que sua isca Super-Dominante & Dominador atrairá quase certamente irá lhe causar mais dor de cabeça que alívio nos bagos.

Não espanta que os homens que utilizam essa ideologia tenham uma amostragem bem ruim do universo feminino: não são elas que não prestam, mas o método de seleção deles que é uma bosta. A fantasia de Alfa irá atrair mulheres mais promíscuas e instáveis, e o sujeito vai terminar achando que todas as mulheres são malucas daquele jeito. (O que elas são ao seu modo, mas não espalhe isso).

As técnicas de flerte com a fantasia narcisista de Super-Alfa-Dominante & Dominador espantam as mulheres que são centradas e bem resolvidas. A rejeição dos “bons partidos femininos” faz com que esses caras achem que ainda não são “maus o suficiente”, e eles então injetam ainda mais testosterona e agressividade no seu comportamento, piorando o índice de rejeição entre as que valem à pena e se aproximando daquelas que não valem tanto – e o ciclo vicioso se inicia novamente.

Como bons macaquinhos que somos, nosso status social – e os bônus sexuais daí oriundos – pode ser melhorado por meio de Compaixão e Cooperação tanto quanto por meio de Agressão e Intimidação. Se bobear, a primeira opção é tão mais fácil quanto a segunda, e mais bem sucedida.

ENTENDA O VALOR DO CENÁRIO

Existem duas rotas básicas para melhorar sua vida: Domínio ou Prestígio. Essas rotas não estão aí à toa. Elas nos foram presenteadas por centenas de milênios de propósitos evolucionários.

Como você percebeu, a rota do Domínio é pavimentada com blocos de intimidação, ameaças, manipulação vil, coerção orgulhosa, arrogância, neurose, narcisismo… Enfim, Chatice mesmo. Por outro lado, a rota do Prestígio é calçada na satisfação do dever cumprido, na confiança enérgica e no sucesso empático, e coberta por camadas honradas de orgulho autêntico.

O Prestígio é a personificação mais elevada da Masculinidade, e quem caminha por essa estrada apresenta um comportamento agradável focado em objetivos, com boas doses de autoconhecimento, satisfação nos relacionamentos interpessoais e uma atitude mental positiva. Em resumo: é um cara que confia no próprio taco e não precisa ficar brandindo o maldito taco por aí na cara de todo mundo.

Daí você conclui: Ah, saquei! Domínio é “ruim” e Prestígio é “bom”…

Calma lá. Eu disse isso? Não venha simplificando as coisas com raciocínios de chimpanzé. O buraco é mais embaixo e somos mais do que isso, meu bom camarada. Sempre que alguém discute sobre Alfas e Betas, essa pessoa invariavelmente se esquece de contabilizar uma coisa chamada Cenário.

Em um ambiente difícil e perigoso, o Alfa Dominante tem seu valor, pois ele consegue o que quer e ainda é capaz de fornecer recursos para aqueles que aceitam submeterem-se ao seu comando. Em um contexto assim, não é preciso muito mais que força e intimidação para fazer as coisas funcionarem. Contudo, para além dos limites das sociedades bárbaras, é o cara de Prestígio quem manda. É ele quem alcança o sucesso na vasta maioria de suas empreitadas. Tudo tem a ver com o cenário.

DEFININDO O QUE AS MULHERES BUSCAM

Dominância e Prestígio são estratégias bem diferentes de obter e manter o status social, e não raramente as duas coexistem e se alternam dentro de nós. Somos animais predadores no final das contas, não anjos – e menos ainda santos.

Dominância é uma boa estratégia para o sucesso no curto prazo, mas será necessário empregar Prestígio para manter-se no terreno. A Dominância pode ser uma excelente conquistadora, mas é uma péssima governante.

Mexendo nessa salada toda, posso dizer sem qualquer medo de errar que o Homem idealizado pelas mulheres é assertivo, descontraído, sensível, gentil, generoso e autoconfiante, e tem nada de agressivo, exigente, quieto, tímido ou submisso. Em outras palavras: o homem idealizado por elas é um Homem de Prestígio, não um Homem de Dominância.

Ao invés de preocupar-se com padrões de comportamento, linguagem corporal e emissão de sinais de domínio, por que não tornar sua experiência neste planeta mais ampla? Engajar-se na missão de implementar padrões de excelência de Masculinidade em sua vida trará um profundo senso de valor, respeito e honra para a sua existência.

Alfas caçam e matam na floresta selvagem. Betas cozinham e servem a mesa. Aqueles que transpiram prestígio de sua Masculinidade, ah meu caro… esses degustam o mundo.

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