POR QUE VOCÊ SE FERRA?

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O cidadão rola na cama de madrugada, encafifado e confabulando sozinho: “Tenho que dormir, tenho que dormir! Por que não consigo dormir?

E ele se vira de um lado para o outro. Passam 30 minutos. Passam 60 minutos. Passam rebanhos de ovelhas. E nada. O sujeito faz as contas de quanto tempo ainda tem até o horário de acordar. “Acordar? Mas nem peguei no sono ainda”… E ele quer cochilar mais que qualquer coisa no mundo. Mas o sono não vem. Por que?

Não parece estranho sermos capazes de estabelecer metas, sabermos exatamente como atingi-las, e ainda assim falharmos miseravelmente nisso?

O segredo que resolve o mistério desta trama pode estar na Teoria do Processo Irônico, também chamada de Paradigma do Urso Polar.

Em 1863, Dostoiévsky propôs um desafio: tente não pensar em um urso polar, e um maldito urso polar irá aparecer na sua mente a cada minuto. A explicação é que, quando você tenta focar em uma meta, dois mecanismos distintos são simultaneamente acionados na sua cabeça

O fenômeno da Teoria do Processo Irônico começou a ser estudado seriamente em 1987, em laboratórios de psicologia experimental. O psicólogo Daniel Wegner foi um dos pioneiros neste campo, demonstrando como os processos mentais podem resultar em pensamentos intrusivos que atuam inviabilizando a construção de soluções práticas.

O RASTREADOR E O PATRULHEIRO

A Teoria do Processo Irônico propõe que os objetivos que traçamos estão sujeitos a dois mecanismos.

O primeiro mecanismo é um processo operacional que direciona seu foco para pensamentos úteis na realização da sua meta. Pense neste mecanismo como um Rastreador.

O segundo mecanismo é um processo de monitoramento: ele vigia a porteira contra pensamentos inúteis e alerta o Rastreador sobre os riscos à sua volta. Pense neste mecanismo como um Patrulheiro.

Vamos supor que você está buscando uma maneira de ser feliz. Seu Rastreador parte em busca de pensamentos relacionados à felicidade, enquanto o Patrulheiro atua na retaguarda, evitando que penetras perturbem o andamento dos trabalhos.

O lance é que o Rastreador não sabe como lidar com penetras: ele sabe lidar apenas com as pistas deixadas pelas ideias que você acha que deseja. Eles as segue como um índio detetive munido de um cão farejador, os narizes colados no chão, os olhos vasculhando cada grão de areia. Mas os penetras deixam marcas confusas de pegadas em toda parte, são um estorvo, e complicam a investigação.

Por isso, toda vez que o Patrulheiro se depara com ideias infelizes, ele avisa ao Rastreador para dar um tempo – “Vá descansar!”, diz o Patrulheiro, enquanto faz uma limpa do terreno, expulsando os penetras. Se você estiver cansado ou estressado, mais e mais furões irão sistematicamente pular a cerca, interrompendo seguidamente o expediente do Rastreador.

O Rastreador consome bem mais energia mental que o Patrulheiro e é preciso um esforço mental consciente para fazê-lo trabalhar. O Patrulheiro, em contrapartida, funciona no automático. Mesmo que o Rastreador esteja descansando, irá continuará procurando ideias infelizes que não foram convidadas para a festa – e as encontrando. Em pouco tempo – e antes que você consiga tirar o Rastreador da cama -, sua mente estará saturada com convicções de infortúnio.

Se quiser evitar ser abatido pelo fogo amigo, o segredo é manter seu Rastreador ágil e alerta reduzindo a sobrecarga mental.

VITAMINANDO O RASTREADOR

Na maioria das vezes, a sobrecarga decorre de estresse.

Não é novidade alguma o  fato de seu estado emocional afetar várias repartições do seu cérebro: o nervosismo pode estimular seu intestino em uma evacuação fora de hora, a ansiedade deixará sua bexiga impaciente, o ciúme fará seu coração bater fora do compasso, a visão de alguém atraente provocará respostas fisiológicas indecorosas em seus genitais, e por aí vai.

Da mesma forma que sua mente age sobre seu corpo, seu corpo também age sobre sua mente. É uma via de mão dupla. E uma maneira bem simples de recuperar o controle sobre sua mente se dá por meio da respiração.

Pesquisadores já descobriram que cada emoção tem um padrão respiratório típico. Por exemplo: a raiva e o medo estão associados a padrões respiratórios rápidos. Pessoas relaxadas respiram lenta e profundamente.

Um estudo clínico randomizado envolvendo 116 militares veteranos com Transtorno de Estresse Pós-Traumático mostrou que a modulação do padrão respiratório é capaz de reduzir os níveis estresse até mesmo em pessoas vítimas de traumas terríveis.

Portanto, se quiser relaxar e vitaminar seu Rastreador, respire como uma pessoa relaxada. Assumir voluntariamente um padrão respiratório lento e profundo enviará uma mensagem de “acalme-se…” para o cérebro. E ele responderá de acordo.

A mente é extremamente vulnerável a sobrecargas. Se você se permitir atolar em distrações, estresse e pressões diversas, suas metas e seus planos descerão pelo ralo sem a menor cerimônia, enquanto seu Patrulheiro corre como um louco, para cima e para baixo, caçando todo tipo de ideia improdutiva, atravancando o mecanismo Rastreador.

Para revigorar e garantir o desempenho de seu Rastreador, você deve reduzir sua sobrecarga mental. Aprenda a relaxar, medite, estude, respire. Ou, se preferir, fique contemplando seu alarme a noite toda, praguejando em direção ao teto: “Tenho que dormir, tenho que dormir! Por que não consigo dormir?”.

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