SOMOS A ESPÉCIE MAIS INTELIGENTE DO PLANETA?

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O polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) foi cônego da Igreja Católica, governador, jurista, matemático, astrônomo e médico. Coube a ele o mérito de ser considerado o pai da teoria Heliocêntrica do Sistema Solar. Sua teoria, publicada em De revolutionibus orbium coelestium (“Da revolução de esferas celestes”), em 1543, seria posteriormente corrigida por Tycho Brahe (1546-1601) e Johannes Kepler (1571-1630), que conferiram ao Sistema Solar a descrição que conhecemos e aceitamos hoje.

Inspirado pelas dicas dadas por Copérnico, Galileu Galilei (1564-1642) publicou seu Dialogo di Galileo Galilei sopra i due Massimi Sistemi del Mondo Tolemaico e Copernicano (“Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo”) em 1632. Inicialmente, os trabalhos de Galileu foram recebidos com grande apoio dos clérigos proeminentes de sua época. Todavia, suas ideias rapidamente foram alvo de ataques por parte da igreja, levando à condenação do astrônomo por desobediência ao sistema cosmológico mais aceito até aquele momento.

Tudo bem que existem textos védicos mais antigos que Copérnico sugerindo que a Terra girava em torno do Sol e não o contrário: a primeira pessoa a apresentar um argumento para o sistema heliocêntrico não foi Copérnico, mas Aristarco de Samos (c. 270 a.C.) – uma proposta que seria novamente apoiada 100 anos depois pelo mesopotâmico Seleuco.

Apesar dessas idas de vindas, por volta de 1700, havia já um acordo de que tanto a Teoria Geocêntrica quanto a Teoria Heliocêntrica deveriam ser ensinadas nas escolas. Em 1822, o ensino da Teoria Geocêntrica seria formalmente abandonado no Ocidente, mas apenas em 1924, a partir da publicação dos estudos de um astrônomo de 35 anos chamado Edwin Hubble (1889-1953), descobriríamos que a Via Láctea não compreendia o Universo todo, mas era apenas uma entre bilhões e bilhões de galáxias espalhadas por toda parte.

Não obstante os esforços de gênios como Aristarco, Seleuco, Copérnico, Galileu, Hubble e muitos outros, a noção de que de alguma forma a Terra é o “centro do universo” e o homem, o “centro da Terra”, parece persistir em nosso inconsciente até hoje. A frase do sofista grego Protágoras (“O Homem é a medida de todas as coisas”) segue firme e forte, e uma das maiores provas disso é nossa insistência em afirmar que somos a espécie mais inteligente do ecossistema local. Para tanto, criamos de modo incessante réguas e cálculos que garantam esta primazia egocêntrica.

EM BUSCA DE UMA METRAGEM FAVORÁVEL

Inicialmente, partimos do raciocínio de que deveríamos ser os animais mais inteligentes pois, afinal de contas, tínhamos cérebros grandes!

O cérebro humano pesa cerca de 1,5 kg em média e certamente é um peso pesado perto do cérebro de um chimpanzé (384 g), um gorila (406 g), uma vaca (420 g), um cavalo (655 g) ou mesmo uma girafa (680 g), e um verdadeiro lutador de sumô quando comparado ao cérebro de um gato (25 g), um canguru (46 g), um cão doméstico (72 g) ou um porco (180 g). Infelizmente, em termos absolutos, nossa massa cerebral é esmagada facilmente pelo cérebro de um elefante (5 kg), uma orca (6,8 kg) ou um cachalote (8 kg).

Dependendo do cetáceo que você escolher como adversário, é possível perder até para um sobrinho-neto do Flipper: o cérebro de um golfinho nariz de garrafa pesa, em média, 1,5 a 1,7 kg.

À vista disso, tentamos outro cálculo. Decidimos medir a razão entre o peso médio de uma determinada espécie e o peso médio do cérebro desta mesma espécie. Opa! Agora tínhamos um número mais favorável: os humanos possuem uma razão peso corporal / peso cerebral de 1:50. Isso nos colocou confortavelmente à frente de gatos (1:110), cães (1:125), esquilos (1:150), sapos (1:172), leões (1:550), cavalos (1:600), tubarões (1:2.496) e hipopótamos (1:2.789).

Sem embargo, uma vez que a razão simples entre peso corporal e peso do cérebro também nos colocava desconfortavelmente atrás de ratos (1:40), alguns pássaros (1:14) e formigas (1:7), fomos atrás de outras contas que garantissem o trono com maior segurança – e rapidamente pensamos no córtex cerebral.

O córtex cerebral corresponde à camada mais externa do cérebro dos vertebrados, sendo rico em neurônios. Nos humanos, tem cerca de 2-4 mm de espessura e uma área de 0,22 m². O córtex desempenha um papel central em funções complexas como memória, atenção, consciência, linguagem e percepção. É nele que as informações recebidas pelo corpo são processadas e integradas, e é também nele que nossas representações simbólicas, o entendimento e a Razão ocorrem. Por isso, não surpreende que costumemos associar o nível de inteligência ao córtex cerebral, e decidimos substituir a divisão direta do peso do corpo pelo peso do cérebro por uma contagem direta da quantidade de neurônios que existem nesta região específica. Não tinha como dar errado: quanto mais neurônios no córtex, mais inteligente uma espécie deve ser, certo?

Esta pareceu uma ótima ideia a princípio: os humanos têm cerca de 16 bilhões de neurônios corticais à sua disposição – uma goleada quando colocamos ratos (14 milhões), gatos (250 milhões), porcos domésticos (425 milhões), cães (530 milhões), leões (545 milhões), girafas (1,7 bilhões), araras (1,9 bilhões), elefantes (5,6 bilhões), chimpanzés (6 bilhões), orangotangos (8,9 bilhões) e gorilas (9,1 bilhões) na parada.

Contudo, a competição começa a ficar apertada quando apreciamos a Falsa-Orca (10 bilhões de neurônios corticais), a baleia Minke (12,8 bilhões), a toninha comum (14,9 bilhões) e a baleia-Fin (15 bilhões), e o jogo vira de vez quando nos confrontamos à baleia-piloto de aleta longa: este magnífico animal da família dos delfinídeos possui nada menos que 37,2 bilhões de neurônios em seu córtex – mais que o DOBRO de neurônios corticais encontrados nos humanos.

Ok. A contagem simples de neurônios corticais terminou não dando muito certo, então voltamos para o que havia funcionado mais ou menos anteriormente: a razão entre peso corporal e massa cerebral. Mas, desta vez, para evitar contratempos, engendramos uma matemática um pouco mais complexa, batizando-a de Coeficiente de Encefalização (Encephalization Quotient ou EQ).

O EQ consiste em um cálculo intrincado entre massa corporal e massa cerebral para predizer o nível de cognição (leia-se: inteligência) de uma espécie. Por meio deste índice, conseguimos fugir das ameaças de insignificância propostas por Aristarco, recuperando alguma primazia: o Homo sapiens possui um EQ de respeito, cravando entre 7.4 e 7.8 pontos.

Para efeito de comparação, vale dizer que os golfinhos possuem um EQ entre 4.5-4.1; orcas, 2.5-3.3; chimpanzés, 2.2-2.5; elefantes, 1.13-2.36; cães, 1.2; esquilos, 1.1; gatos, 1.0; cavalos, 0.9; ovelhas, 0.8; e ratos, 0.5; etc.

O EQ parece ter restabelecido o trono inquietado pelas ideias da turma de Copérnico, Galileu e companhia, mas a Neurociência é uma arte perita em desbancar nosso antropo-geocentrismo com grande eficiência e cinismo. E o que ela vem apontando é algo bem diferente da coroa concedida pelo coeficiente.

OS MAIORAIS EM ARROGÂNCIA

Muitos animais possuem Moralidades virtuosas, incluindo traços nobres de caráter como lealdade, cooperação, paciência e altruísmo; dispõem de linguagens elaboradas; velam seus mortos; ajudam estranhos (mesmo estranhos de outra espécie); demonstram criatividade e industriosidade, criando armas, ferramentas e soluções absolutamente inusitadas (e, porque não, inteligentes ipso facto); aprendem seletivamente e por associação; e demonstram capacidade de memorização e localização supra-humanas.

Estudos mais recentes de metacognição (J Comp Psychol. 2010 Nov;124(4):356-68) sugerem inclusive que existem evidências sólidas que alguns animais possuem consciência de si mesmos: grandes primatas, golfinhos e macacos Rhesus são capazes de monitorar seus estados mentais e utilizar  “Eu não sei” para evitar responder perguntas mais difíceis.

Com tudo isso, é de se pensar se todas as escalas de inteligência que fabricamos realmente mensuram Inteligência ou apenas espelham nossa eterna necessidade de corroborar o Homo sapiens como a espécie mais genial e talentosa deste planeta.

Séculos depois de Copérnico e de toneladas de crenças infundadas, parece que ainda não deixamos de nos achar o centro de tudo que há. Pelo menos a Ciência está oferecendo alguma luz austera neste caminho – e ela certamente nos tornará mais humildes ante ao incrível fenômeno da Vida que nos cerca.

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