AMOR E MUTUALIDADE NOS TEMPOS PÓS-MODERNOS

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Gosto quando ele ou ela me surpreende”, dizem os pós-modernos, fingindo desconhecer que o desejo é a anarquia do romance não-domesticado e que qualquer relacionamento amoroso busca segurança na previsibilidade – ou  seja: amor e desejo são situações manifestamente excludentes.

Ao contrário da lascívia, o amor não é muito bom em lidar com surpresas, ainda que goste de se alimentar de um pouco de volúpia. Então, quando nos deparamos com a crise da Moralidade nos relacionamentos, não custa muito fazer as contas para perceber por quê os ajustes não fecham – e como rapidamente as pessoas são flagradas em desespero procurando curar a temporalidade da afinidade original.

A lista de exigências de domesticação do “amor previsível” possui muitos itens. Por exemplo: você não pode sair de casa sem dizer aonde está indo e / ou que horas irá voltar. Você não pode ir passear se a outra pessoa preferir ficar em casa. Você não pode ter preguiça, deixar louça na pia para lavar mais tarde ou fazer menos de 50% do serviço de casa que o outro acha minimamente razoável. Você não pode comer ou beber o que bem entende ou ganhar peso. Você não pode assistir novelas ou futebol ou séries ou programas de auditório na TV. Você não pode ter amigos ou amigas ou senha no celular ou uma página própria em uma rede social. Você não pode curtir pornô. Você não pode gastar seu dinheiro em algo considerado supérfluo ou decidir por uma compra cara sem consultar o outro (ou outra, pode sempre ser uma outra e não um outro, lembre-se disso!). Você não pode ser simplista, mesmo quando as coisas são simples. Você não pode dizer com sinceridade o que acha daquela roupa ou daquela maquiagem ou daquele comportamento. Na verdade, o que você não pode não interessa muito. O que interessa é que a palavra em ação seja “não pode”. E assim acreditamos que nos tornamos capazes de ir construindo aquele amor que irá durar.

No caminho terapêutico desta aflição, passamos por lojas de lingeries, sex shops, filhos, teorias sociais, jantares, livros, infidelidade, constrangimento, culpa, pânico, terapias de casal, até que nos perguntamos: “quanto mais de renúncia será necessário para finalmente receber a gratificação transcendental que o amor prometia?”.

A resposta é: não é necessário renúncia alguma, mas aceitação. A aceitação da Mutualidade. Aceitar (e reconhecer) que o outro tem necessidades e que é seu dever preparar-se para atendê-las. A mutualidade é a maneira mais eficaz para firmar-se como objeto do desejo do outro, desenvolvendo Intimidade – o pré-requisito para um estado chamado de Amor Maduro. E intimidade não é simplesmente ter autorização para ver o outro urinar de porta aberta. Também vai além de expressar seus sentimentos com demonstrações anatômicas e fluidos corporais. Intimidade é convidar o outro para conhecer um pouco do seu “eu” mais interior, tornando-o uma mistura de consultório médico e confessionário.

A mutualidade requer comunicação: para que as necessidades sejam satisfeitas, elas devem ser conhecidas. Obviamente, isto não se aplica quando seu parceiro ou parceira é telepata, mas como telepatas não existem, a saída para a mutualidade continua sendo o diálogo.

Infelizmente, o sujeito pós-moderno (ou sujeita pós-moderna) ouve “mutualidade” e imediatamente pensa em “o que o outro (ou outra) deveria estar fazendo por mim e não está”. O pós-modernista é assim, egocentrado em uma Deontologia Moral onde a vítima é sempre ele mesmo. Ele ouve sem escutar. Capta sem absorver. É um recíproco parcial, recheado com sensibilidades nada solidárias. Ele tem direito a todos os direitos e apenas quando todos estes direitos forem satisfeitos – de preferência, mais de uma vez -, irá lembrar que possui deveres. Com alguma sorte irá lembrar. Na maioria dos casos, não lembra. Mas certamente, ah, certamente irá reclamar que não está sendo desejado e amado o suficiente. E dirá o que não pode.

Quanto à Mutualidade, bem… o pós-moderno ainda não saiu das fraldas o suficiente para saber exatamente o que é isso. Quem sabe, um dia.

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