UM NARIZ DE BATATA NO CAMINHO DA TEORIA DA EVOLUÇÃO

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Você sabia que quase perdemos a chance de receber a Teoria da Seleção Natural – e todo o conhecimento oriundo do Darwinismo – por causa de um nariz?

Se não sabia, deixe-me lhe contar como isso aconteceu:

Em 1827, Charles Darwin era um mancebo mimado de 18 anos cursando medicina na Universidade de Edimburgo, considerada a melhor faculdade médica da época. Mas Charles se sentia nauseado com as aulas práticas e vivia deixando os estudos bem de lado.

Sentindo que a teimosia e a negligência do adolescente não iriam dar em muita coisa, seu pai, o influente médico e investidor Robert Darwin, o trocou de faculdade. “Quem sabe, talvez Charles consiga pelo menos terminar um bacharelado de Artes em Cambridge”, ponderou Robert. Seu menino mal conseguiu passar na prova de Cambridge, obtendo apenas acesso a um curso inferior em 1828.

Durante os anos em Cambridge, Charles preferia ficar passeando com os amigos, andando a cavalo e colecionando besouros. Ainda assim, concluiu a graduação com algum mérito enquanto sonhava em ser um aventureiro, viajando para estudar história natural em paraísos tropicais.

Em 1831, ele teve sua chance: por meio da indicação de um amigo influente, Darwin foi recomendado para acompanhar o intrépido Capitão Robert FitzRoy na segunda viagem da fragata HMS Beagle, um veleiro instável de 27,5 metros.

O Beagle pertencia a uma classe de navios chamada Chereokee, apelidada de “brigues caixão” (coffin brigs), dada a notória tendência daqueles navios para adornarem excessivamente: das 107 naus construídas pela Marinha Real Britânica segundo o projeto Chereokee, 27 se perderam no mar.

Curiosa e tragicamente, FiztRoy não deveria ser o capitão Beagle: a fragata era comandada pelo capitão Pringle Stokes. Contudo, no começo de agosto de 1828, Stokes desenvolveu uma depressão profunda e tentou o suicídio dando um tiro na própria cabeça. A bala não o matou, mas causou uma infecção que terminou liquidando-o 11 dias depois. Com isso, FitzRoy foi nomeado capitão temporário do Beagle em dezembro de 1828.

FiztRoy concluiu o primeiro giro de exploração da fragata em 1830, retornando então para a Inglaterra consagrado como um Capitão eficiente, disciplinado e corajoso. Porém, uma vez que o mapeamento da costa da América do Sul ainda estava incompleto, FiztRoy recebeu a missão de organizar uma segunda viagem com o navio.

Para naturalista de sua equipe nesta segunda jornada, o Capitão havia escolhido o prestigiado botânico John Stevens Henslow, mas Henslow recusou o convite, indicando seu amigo e “discípulo” Charles Darwin para o posto. Charles aceitou a atribuição com entusiasmo, sob os protestos iniciais de Robert Darwin, que se opôs terminantemente à aventura do filho, considerando-a “uma enorme perda de tempo e dinheiro”. Mesmo assim, e graças à mediação de um tio, Robert foi convencido que aquilo poderia ser proveitoso para o jovem e Charles partiu ao encontro de FiztRoy.

Em agosto de 1831, Charles e o Capitão se reuniram. De cara, FiztRoy simplesmente não gostou do garoto: para ele, o nariz com formato de batata de Charles mostrava que o moçoilo de 22 anos não possuía a energia e a determinação suficientes para a empreitada.

Após alguma negociação, e provavelmente considerando o generoso incentivo financeiro oferecido por papai Robert, FiztRoy finalmente concordou em levar Charles e seu nariz de batata.

Ao longo a expedição de 5 anos, segundo anotado pelo próprio Charles em seu diário, FiztRoy terminou se convencendo de que o nariz de Darwin havia lhe “contado uma mentira”. E aquela viagem do Capitão FiztRoy, do faro de Darwin e do oscilante HMS Beagle entraria para história como um dos eventos mais importantes do século XIX.

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Referência: Charles Darwin (Autor), Nora Barlow (Editor). The Autobiography of Charles Darwin: 1809-1882. W. W. Norton & Company (1993).

 

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