A VERDADE SOBRE O LOBO ALFA

2
8290

Dê um fuçada no Instagram ou Facebook de algum amigo seu e você fatalmente irá esbarrar na foto de um lobo mostrando os dentes ensaguentados, olhar raivoso ou uivando para a lua.

Acompanhando esta imagem, invariavelmente segue em negrito uma frase musculosa, cheia de atitude, dizendo que faz as coisas ao seu modo, não conhece o risco e domina tudo e todos a sua volta. Saca? A mensagem do Lobo Alfa.

A ideia de que existem lobos alfas e betas se originou dos trabalhos de Rudolph Schenkel, da Universidade de Basel (Suíça), que estudou uma matilha que vivia no zoológico local na década de 1940. Schenkel observou que os lobos competiam por status separados por gêneros, e dessas rivalidades emergia um “casal alfa” – um macho líder e uma fêmea líder -, que comandavam o restante do bando.

Então, em 1970, o cientista americano L. David Mech escreveu um livro chamado O Lobo (The Wolf: The Ecology and Behavior of an Endangered Species), expandido as pesquisas de Schenkel e popularizando a ideia de lobos alfa e betas, e a dinâmica social de líderes e subordinados da matilha. Ambos pesquisadores descreveram essa dinâmica como uma competição por status. Os alfas eram os mais agressivos e violentos, e utilizavam essas habilidades para rechaçar qualquer rival que questionasse sua autoridade.

A cultura popular foi ligeira em adotar este conceito de competição pelo posto de Lobo Alfa, além da distinção entre alfas e betas, e aplicou a merda toda aos humanos – especialmente aos Homens. É daí que vem a noção de que para ser um Macho Alfa você não deve fazer prisioneiros, deve botar para quebrar e fuder com tudo todos os dias, e nunca se arrepender de porra alguma.

Existe apenas um pequeno problema com essa noção…

As pesquisas que basearam estes conceitos se mostraram, na verdade, um grande engano.

O MITO E A REALIDADE DO LOBO ALFA

Ao longo de boa parte do Século XX, os pesquisadores acreditaram que as matilhas se formavam a cada inverno envolvendo lobos independentes e não-aparentados que habitavam um território comum. Haviam chegado a esta conclusão após observar grupos de lobos agrupados em cativeiro em vários zoológicos do mundo.

Sob essas circunstâncias, os lobos organizavam a matilha com base na agressão física e na dominância, e o posto de alfa terminava sendo ocupado de fato pelo cara mais forte e bravo entre os demais.

Mas então alguns cientistas finalmente tiveram a sacada de observar como as matilhas se organizavam na natureza. E o que encontraram estava tudo ao contrário da crença popular.

Ao invés de formar matilhas com indivíduos não-aparentados, onde os machos alfa competiam para chegar ao topo, os pesquisadores descobriram que as matilhas consistiam na verdade em núcleos familiares. Os lobos são uma espécie geralmente monogâmica, onde os casais formados permanecem unidos por toda a vida. Juntos, eles formam um bando em tipicamente consiste em 5 a 11 membros – o casal, seus filhotes mais novos e aqueles que continuam na matilha até por volta do 1 ano de idade, quando então vão buscar um par para formar suas próprias matilhas.

O casal-base divide a responsabilidade de liderar sua família e cuidar dos filhotes. Na linguagem do século XXI: eles exercem uma “guarda compartilhada”. Por serem os pais do bando, tanto o macho-pai quanto a fêmea-mãe ocupam o topo da hierarquia.

Em outras palavras: os lobos alfa não ganham seu status por meio de agressão e dominância de outros machos, mas simplesmente porque os demais lobos na matilha são sua esposa e seus filhos. Ele é o patriarca, o paizão. E como acontece na maioria das famílias humanas, o lobo alfa protege sua família e os trata com gentileza, generosidade e amor.

Após acompanhar lobos no parque Yellowstone por mais de 20 anos, o cientista Richard McIntyre foi tácito em afirmar que jamais viu um lobo alfa agir de modo agressivo contra sua própria matilha. Pelo contrário: o patriarca fica por perto até que seus filhotes estejam 100% maduros. Ele caça sozinho ou com sua fêmea e os filhotes mais crescidos, provendo alimento para todos. Muitas vezes, o alfa espera que todos tenham se fartado antes de pegar a sua parte.

Isso não significa dizer que os lobos alfa são delicados e submissos. Eles são predadores poderosos e podem abater animais bem maiores que eles. E, quando sua família é ameaçada por inimigos ou competidores, o macho alfa a defende com extrema ferocidade – algumas vezes sacrificando a própria vida para salvar sua fêmea e os filhotes.

Sim, os lobos alfa demonstram comportamentos de dominância social. Os machos têm encontros de dominância com outros machos – patriarcas que enfrentam alfas estranhos ao grupo, ou que às vezes precisam mostrar às crianças quem manda no pedaço, ou irmãos mais velhos colocando irmãos mais novos no devido lugar.

Lobos alfa podem ser violentos e assertivos quando a situação assim exige. Contudo, na maior parte do tempo, ele não lidera com latidos ou mordidas, mas com uma força sólida, firme, e caridosa.

Sobre isso, McIntyre escreveu para outro pesquisador:

“A principal característica de um lobo alfa é sua confiança silenciosa. Ele é seguro, sabe o que deve fazer e sabe o papel de cada um na matilha, liderando pelo exemplo. Ele tem um efeito apaziguador confortável sobre os demais”.

Após compreender a realidade sobre como os lobos formam suas matilhas, pesquisadores como L. David Mech procuraram retratar sua teoria original sobre alfas e betas, execrando essas denominações.

Infelizmente, a ideia já havia “colado”, e muitos homens hoje continuam seguindo o conceito equivocado de que é preciso ser violento, agressivo e implacável para conquistar o status de alfa. A realidade de ser um lobo alfa é bem mais multifacetada e certamente mais inspiradora.

FAZENDO DO LOBO O SEU VERDADEIRO TOTEM DE MASCULINIDADE

Utilizar exemplos de animais para determinar como um Homem deve viver é uma ideia sensata e construtiva. Todos eles possuem significados poderosos e podem ser úteis, desde que compreendamos como eles se comportam de verdade.

Durante milênios, a natureza predadora dos lobos serviu de espelho para nossos anseios de liberdade, vida selvagem e ferocidade masculina. Mas este é apenas um dos lados dos lobos – e apenas um dos lados do que significa ser um Homem.

Lobos alfa são agressivos, irascíveis, dominantes, mas eles também são protetores, provedores e sensíveis.

Se o seu projeto é espelhar-se em um “lobo alfa”, você terá que ir além de se matar na academia, ser mais forte ou mais rico que seus competidores. Você também deverá se tornar compromissado, dedicado, atencioso e leal a todos aqueles que você ama. ISSO, amigo, é ser um Homem alfa.

2 COMENTÁRIOS

  1. Fico mesmo consideravelmente contente com matérias assim bem informativas. No contexto tudo se encacha quando se luta pela afirmação e melhora de tudo Na minha opinião na vida temos mesmo de fazer escolhas e seguir em frente mantendo o foco. Obrigada!

Deixe uma resposta