A ESTRATÉGIA DE JOHN BOYD: SER OU FAZER?

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Para quem gosta de aviões e guerras, John Boyd é um mito. Ele fez mais contribuições para táticas de voo, desenho de aeronaves e teoria de combate ar-ar que qualquer outro homem na história.

Como piloto de caça, era imbatível e recebeu o apelido de “Boyd 40 Segundos”: nos combates simulados, ele desafiava seus oponentes a sobreviverem por mais de 40 segundos. Se conseguissem, John lhes pagaria 40 dólares. Pelo que consta, o dinheiro nunca saiu da carteira de Boyd.

Um ás no cockpit, sua mente também não conhecia rivais. Ele não foi apenas um piloto, mas um engenheiro genial e um talentoso filósofo das artes da guerra.

No começo de 1960, aos 33 anos de idade, Boyd finalizou um estudo de 150 páginas chamado “Aerial Attack Study,” que se tornou o manual oficial de tática da Força Aérea dos Estados Unidos e revolucionou os métodos de combate aéreo em todo o mundo. Sua teoria de Energia e Manobrabilidade (Teoria E-M) tornou possível a construção dos lendários F-15 e F-16. Se você assistiu Top Gun, então você viu Tom Cruise estudando as técnicas de Boyd e os caças de Boyd.

Ao todo, John Boyd serviu à Força Aérea por 24 anos e 3 guerras. Mas ele nunca alcançou um posto mais alto que o de coronel, graças à sua teimosia em não ceder aos seus princípios e ideais de desenvolvimento.

UMA BIFURCAÇÃO NA ESTRADA

Boyd entrou para o exército ainda bem jovem, mas nunca se encaixou exatamente bem no militarismo. Ele não fazia o tipo clássico de soldado que segue ordens ao pé da letra simplesmente porque foram dadas.

Espera-se que qualquer oficial seja bem disciplinado, reverencie seus superiores e defenda o status quo. Boyd era tudo menos essas coisas. Ensinaram-lhe que o combate aéreo funcionava de uma determinada forma, mas ele percebeu que aquelas táticas eram subjetivas, ultrapassadas e ineficazes. E era difícil tirar uma coisa da cabeça de John quando ele SABIA que estava no caminho certo.

A intensidade de suas convicções e seu estilo “Falo mesmo, doa a quem doer!” lhe renderam apelidos como “Major Maluco” e “Genghis John”. Boyd estava sempre a um passo da insubordinação e sabia disso, mas justificava seu modo de agir dizendo: “Você DEVE rever TODAS as suas premissas: se não fizer isso, o que é uma doutrina hoje, torna-se um dogma para sempre”.

A combinação de brilhantismo e insolência o transformou em uma figura polarizante. Nos relatórios de desempenho, alguns de seus superiores criticavam seus modos e a falta de aderência aos protocolos, enquanto outros o qualificavam como o oficial mais talentoso e dedicado que já haviam conhecido. Os primeiros tentavam sabotar sua carreira, os segundos tentavam mantê-lo nos quadros.

Por algum tempo, Boyd chegou a achar que seus “tutores do bem” iriam vencer a parada. Então, um dia, ele foi preterido em uma promoção de patente. Ao invés de conseguir o posto, este foi dado a um burocrata sem sal ou brilho, porém obediente. Este evento foi um divisor de marcas em sua carreira militar.

Quando um homem é jovem e idealista, ele acredita que, se trabalhar duro e fizer as coisas certas, o sucesso está garantido. Mas trabalho duro e sucesso nem sempre andam juntos na carreira militar: entre os homens de farda, o sucesso é definido por sua patente, e alcançar altas patentes implica em agir em conformidade com o sistema de valores militares. Aqueles que agem diferente um dia perceberão que o caminho para agir certo tomou um desvio do caminho par ao sucesso, e fatalmente chega uma hora em que é preciso decidir qual caminho tomar. Depois de todo seu esforço, Boyd compreendeu que, se ele não havia sido promovido a tenente coronel, então jamais chegaria muito longe.

Muitos oficiais desistem da carreira quanto percebem que não conseguirão alcançar o topo da hierarquia. Mas Boyd não havia entrado para o serviço militar para colecionar insígnias em seu uniforme. Ele era movido pelo desejo de “mudar o entendimento das pessoas sobre a aviação”, e esperava fazer uma contribuição significativa e duradoura para arte da guerra.

Naquele tempo, a Força Aérea era um dos piores lugares para este tipo de comportamento empreendedor, e também um dos melhores lugares possíveis para propor mudanças. A rigidez e o anacronismo de sua estrutura permitia sonhar nas duas direções. John compreendeu que algumas vezes, a melhor maneira de mudar uma instituição não é sair dela e guerrilhar do lado de fora, mas ficar e trabalhar para transformar tudo a partir de suas entranhas.

SER OU FAZER

Graças às suas contribuições teóricas e práticas, Boyd foi designado para o Pentágono, um lugar cuja atmosfera era ainda menos amistosa para seu temperamento. Quanto mais alto o círculo hierárquico, maior o número de carreiristas, a quantidade de tapetes puxados e a necessidade de puxa-saquismo – isso acontece em todo o mundo, desde tempos imemoriais.

John não estava disposto a vender sua alma e também não se mostrou nem um pouco intimidado pelo fato de que, como um major de 39 anos, todo o resto do pessoal por ali tivesse uma patente superior à sua. Ele trabalhou ainda mais intensamente para melhorar o desenho dos aviões de caça.

As inimizades se acumulavam e não foi surpresa alguma ele ser novamente preterido em uma promoção para general. Boyd estava naquele ponto onde galgar o sucesso institucional e fazer a coisa certa começam a tomar caminhos completamente opostos. Ele escolheu insistir em fazer o que achava ser certo, e levava seus pupilos a refletirem, dizendo:

“Tigre, um dia você também chegará a uma encruzilhada, e você terá que decidir por si só sobre qual caminho tomar. Você pode ir por aquele lado – e apontava com a mão – e ser alguém. Você terá que fazer acordos e terá que virar as costas para muitos amigos. Mas você será um membro do clube, ganhará promoções e boa remuneração”.

“Ou você pode ir por aqui – ele erguia a outra mão, apontando para o lado oposto – e fazer algo importante para você, para a Força Aérea e para o país. Se você decidir FAZER algo, talvez não receba as promoções e os rendimentos, e certamente não será alguém bem visto pelos seus superiores. Mas você não terá que se vender. Você permanecerá fiel aos seus amigos e consigo mesmo. E seu trabalho poderá fazer uma diferença.

Ser alguém ou fazer algo. Todos nós chegaremos nessa encruzilhada um dia. Qual caminho você irá tomar?”.

Todo Homem encontra este momento em sua vida. O momento onde ele deve decidir se irá lutar para SER alguém importante ou se irá trabalhar para FAZER algo importante. Algumas vezes, as duas missões caminham lado a lado. Frequentemente, não.

Incontáveis estudos mostram que os jovens da atualidade desejam uma vida glamurosa ao invés de uma vida de trabalhos e legado. Pergunte a qualquer garoto de 5 a 11 anos de idade e veja quantos deles querem ser estrelas do esporte, da música, do cinema, da TV. Mais ou menos uns 30 anos atrás, eles aspirariam ser professores, engenheiros, advogados, médicos. Isso mudou. Os jovens querem ser reconhecidos, famosos, querem se tornar celebridades – o quanto antes for possível. E eles aprendem cedo demais que o caminho para isso envolver dizer às pessoas apenas o que elas querem ouvir, empacotando suas crenças no que for mais popular e vendendo tudo de volta à audiência.

Em nossa Era Digital, a manada online pode se mobilizar rapidamente para silenciar qualquer opinião que considere aberrante. Nem mesmo a ciência está imune a esta tendência: ter um estudo publicado em uma revista especializada e reproduzida nas manchetes pode resultar em acordos lucrativos para palestras, publicações de livros, etc. Entretanto, trabalhar em pesquisas controversas que questionem o status quo é como vestir uma fantasia de para-raios e sair andando em plena noite de tempestade.

Desafiar o “estado das coisas” nunca foi uma tarefa fácil. Quem segue por este caminho deve preocupar-se não apenas em ganhar fama, mas em manter-se no emprego. Todos vivem sob o medo de falar ou fazer algo que diminua sua empregabilidade. É por isso que a habilidade de empregar verdades para contestar o poder sempre esteve intimamente ligada à uma indiferença para bens materiais. Boyd entendeu esta lição e dizia: “Se um homem pode reduzir suas necessidades a zero, ele é verdadeiramente livre. Nada pode ser tirado dele e ninguém pode atingi-lo”.

A frugalidade extrema de John Boyd também lhe rendeu a alcunha de “Coronel do Gueto”, e durante toda a vida ele morou em um pequeno apartamento e dirigia automóveis caindo aos pedaços. O estilo de vida espartano custou caro à sua família, mas o legado de Boyd foi corajoso, honrado e permanente.

Inspirado na vida e na herança de John Boyd, Robert Gates, Secretário de Defesa dos EUA de 2006 a 2001, certa vez pronunciou as seguintes palavras em um discurso para a Academia da Força Aérea:

“Aqui nesta Academia, como em qualquer universidade e empresa nos Estados Unidos, existe um foco no trabalho em equipe, na colaboração e na construção de consensos.

Ainda assim, não se iludam! Para cada um de vocês, chegará o momento onde deverão se colocar de pé para tomar uma decisão difícil e impopular. O momento onde deverão desafiar a opinião de seus superiores ou dizer que vocês não são capazes de realizar aquela tarefa dentro do tempo e dos recursos oferecidos. Ou quando vocês saberão que o que seus superiores estão divulgando não corresponde à verdade dos fatos. Existirão momentos em que sua carreira inteira está em risco, momentos onde vocês irão se deparar com a Encruzilhada de Boyd: SER ou FAZER?

Preparar-se para este momento requer disciplina, integridade e ética. Estas qualidades não aparecem da noite para o dia, tampouco surgem como revelações divinas quando assumimos posições de destaque. Estas qualidades têm raízes fincadas em cada pequena decisão que tomamos e devem ser fortalecidas ao longo de sua existência, dando-lhes a força necessária para resistir à tentação do Ego diante da Responsabilidade. E vocês devem assegurar que sua coragem moral sirva a um propósito maior. Só assim teremos uma nação da qual nos orgulhar”.

E estas palavras se aplicam tanto aos cadetes que estavam sentados na frente de Gates naquele dia quanto a qualquer um de nós, em todos os dias da nossa vida.

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