O PARADOXO DAS MÚLTIPLAS ESCOLHAS

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Apesar de ter apenas um corpo, você leva vidas múltiplas: existe sua vida profissional, sua vida pessoal, sua vida interior, sua vida amorosa, sua vida no círculo de amigos, sua vida em família… e a pressão para priorizar uma sobre as demais é constante: todas querem o papel de protagonista.

Com os avanços tecnológicos e a flexibilidade das opções de trabalho, elaboramos uma noção equivocada de que somos capazes de criar mais tempo disponível para tudo isso. Mas o tudo isso cresceu com as alternativas, esmagando o tempo em minutos que parecem durar menos de 60 segundos, e todas aquelas opções que deveriam simplificar suas várias vidas se tornaram um caleidoscópio exaustivo de possibilidades sem fim.

Segundo Freud, o amor e o trabalho são as duas pedras fundamentais de nossa humanidade. Será que ele tinha alguma ideia de como seria difícil equilibrar-se mantendo um pé em cada uma dessas pedras no século XXI? A multiplicidade de opções intensificou a coerção para sermos excelentes em todas as escolhas. E quanto mais opções, mais insaciáveis se tornaram as expectativas.

Faça o teste: saindo do trabalho, você passa no supermercado e se depara com dezenas de marcas de sabão em pó e vinhos e queijos nas prateleiras. Comece a somar os minutos que leva escolhendo entre um e outro e logo irá se assustar com o tempo descomunal que investe pesquisando esses itens.

Por outro lado, se você sair do trabalho e der uma parada rápida naquela minúscula mercearia de quarenta metros quadrados perto do seu prédio, encontrará dois ou três tipos de sabão em pó, um queijo prato ou mussarela, e uma única marca de vinho decente – e olhe lá. A rapidez de escolha é inversamente proporcional à variabilidade das opções disponíveis. E então você respira com alívio: sim, nos sentimos melhor – e nos saímos melhor – quando temos menos opções à mão.

No livro O Paradoxo da Escolha, o psicólogo Barry Schwartz afirma que, à medida que a capacidade de escolher e controlar torna-se mais ampla e profunda, as expectativas sobre o que escolhemos e controlamos também aumentam para equivaler à experiência. Com o incremento das oportunidades e da flexibilidade no seu dia, você é compelido a tomar decisões mais lúcidas sobre para onde direcionar seus recursos. O privilégio de ser capaz de fazer essas escolhas aumenta as expectativas com os resultados – e também aumenta a probabilidade de desapontamento.

Vinte minutos escolhendo um vinho e você comprou outra garrafa do mesmo de sempre? Dez minutos para decidir sobre qual queijo levar e trouxe um com gosto de leite azedo misturado com roupa suja? Tantas pessoas disponíveis, tantos relacionamentos para vicejar e você só se envolve com tranqueiras? Culpe o Paradoxo de Barry.

AJUSTANDO SUAS EXPECTATIVAS

Schwartz diz que a Qualidade de Vida é mais afetada pelo controle das expectativas que por qualquer outro recurso: endireitando as perspectivas sobre o “ter e fazer tudo ao mesmo tempo”, você aumenta as chances de sentir satisfação com seus dias.

Esse ajuste pode ser feito a partir de 3 passos bem acessíveis. Vamos a eles:

  1. Defina Objetivos Realistas. Quando comecei a me aventurar em trilhas e descobrir o universo do trekking selvagem, uma das primeiras lições que aprendi foi a seguinte: seu apartamento inteiro não cabe naquela mochila de 50 litros. E, além de escolher muito bem o que levar, você deve arrumar a mochila em uma ordem racional: deixe as coisas do acampamento no fundo – elas só serão utilizadas ao final do dia -, e mantenha por cima, no local de mais fácil acesso, sua capa de chuva ou corta-vento, o protetor solar, um recipiente com água e um lanche rápido para o caminho. No espaço limitado da mochila, os itens devem ser dispostos em camadas inteligentes. Proceda da mesma forma no espaço limitado das horas nos seus dias e dos dias em sua vida. Simplesmente não adianta enfiar 10 reuniões, 20 relatórios, malhar 1 hora, ir ao supermercado, buscar as crianças na escola, acompanhar o dever de casa dos pequenos, dar uma namorada e subir o Everest em um mesmo dia.
  1. Esqueça as Comparações Sociais. Graças ao Facebook, Twitter, Instagram, Linkedin e todas as redes sociais possíveis e imagináveis, sempre haverá um peixe maior que você no aquário. Deixe essas réguas de lado. Esqueça-as e passe a medir-se pelos seus próprios méritos: você atingiu as metas que se propôs para aquele dia? Essas metas estavam alinhadas com seu objetivo de médio e longo prazo? Se respondeu SIM para estas duas perguntas, ótimo! Cada dia deve ser um degrau. Não um degrau avaliando a brancura do mármore na escada dos outros, mas um degrau simples e eficiente na sua própria escalada para uma vida mais sábia e plena.
  1. Dê Boas Vindas aos Custos das Oportunidades. Não interessa o quê escolheu fazer: você estará sempre escolhendo não fazer alguma outra coisa. Por exemplo: ter filhos e seguir uma carreira profissional significa que, uma hora ou outra, você terá que fazer uma escolha por uma dessas atividades. No momento em que uma reunião no seu trabalho cair bem em cima da apresentação de teatro do seu filho na escola, o que você fará? Trabalhe-se antecipada, cognitiva e emocionalmente para fazer esta escolha. Quando ela aparecer, encontrará uma mente preparada para o dilema, e não surpresa ou desesperada com o cenário. Aceite a sua não-onipresença. Esta é umas das qualidades que lhe torna humano. E vá na peça de teatro do seu filho.

Seus recursos são finitos e devem ser divididos em muitas frentes de ação. Aprender a equilibrar-se entre a gratidão do que você recebe e a aceitação de suas fronteiras é uma excelente fórmula para navegar pela vida com mais serenidade.

Aperfeiçoar suas ferramentas mentais para enfrentar o Paradoxo das Múltiplas Escolhas é um encargo do qual você não pode escapar. Esta tarefa pode ser fútil, complexa, árdua, conflitante e muitas vezes injusta, mas é – sem dúvida alguma – essencial para que você desenvolva a capacidade de apreciar tudo no tudo que você já possui.

 

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