HOMENS E MÚSCULOS

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A sociedade emasculadora produziu gerações de homens cuja preocupação com a própria aparência supera em muito aquela que associamos a comportamentos femininos. Não estou falando aqui que um rapaz ou um homem adulto jovem não deveria preocupar-se com sua aparência, mas em muitos casos a neurose com relação a isto tem ultrapassado o nível do razoável: um número considerável de homens vem utilizando hormônios esteroides anabolizantes (EA) como se fosse água. Os principais EA usados incluem variações de testosterona, nandrolona, dromostanolona, stanazolol e outros.

Influenciados pelas imagens no cinema e pelas fotos de supermachos nas caixas de suplementos (que não ficaram bombados daquele jeito comendo apenas brócolis, ovos, macarrão e peito de frango…), 6% dos homens terminam abusando dos anabolizantes (contra pouco mais de 1% das mulheres) e mais de 78% não utilizam essas substâncias por motivos atléticos ou esportivos, mas estéticos: com frequência, eles querem parecer mais fortes porque acreditam que essa imagem é uma afirmação incontestável de sua masculinidade. O que não percebem é que este caminho produz exatamente o resultado inverso, devorando silenciosamente sua autoconfiança como homens.

Cerca de 30% dos usuários de EA se tornam dependentes das substâncias, aumentando seu risco para doenças cardiovasculares (hipertensão arterial e cardiomiopatia), metabólicas (diminuição da libido e ginecomastia), gastrintestinal (gengivite, alteração do funcionamento do fígado, hemorragias), genitourinárias (hipertrofia prostática, atrofia testicular, infertilidade), hematológicas (policitemia), neuromusculares (mialgia, ruptura de tendões, artrose), dermatológicas (acne, dermatite de contato) e neuropsiquiátricas (insônia, transtornos do humor, depressão), entre outras.

E não se trata apenas de esteroides: toda uma indústria da boa forma foi construída sobre a fragilidade masculina. Suplementos, dietas, programas, aplicativos, academias, equipamentos… apenas nos EUA, o mercado fitness movimenta mais de 30 bilhões de dólares por ano desde 2013. Uma fatia considerável desses consumidores é formada por homens apreensivos com sua imagem física. E arrisco dizer que menos de 0,1% desses homens investe o mesmo volume de tempo e energia em aprimorar suas mentes. Eles vivem em um Complexo de Adônis e não percebem: queriam estar em forma, mas agora estão fora de controle, presos em uma armadilha da qual não conseguem sair. A aparência do corpo se tornou a única base de sua autoestima.

Houve um tempo em que os arquétipos cinematográficos de masculinidade eram homens de atitude, não homens de músculos. Observe Clark Gable, Humphrey Bogart, John Wayne, Steve McQueen, Charles Bronson, Jack Nicholson, Robert Redford, Al Pacino… nenhum deles era um Mister Olympia, nas ainda assim personificavam com grande intensidade o jeito macho de ser – até mesmo no imaginário das mulheres.

Considere ainda o tempo dos seus avôs e bisavôs. Nenhum deles parecia ter alguma preocupação especial com a quantidade de músculos em seu braços, abdome e coxas. Eles não iam para a academia malhar. Eles não guardavam uma balança de bioimpedância no banheiro ou um adipômetro no armário. Mas eles valorizavam bússolas masculinas (Força, Coragem, Honra, Disciplina e Sabedoria). E eram Homens de Verdade. Muito mais homens que aqueles que somos hoje em dia.

O corpo que os homens do século XXI acham que as mulheres gostam é 10 kg mais musculoso que aquele que as mulheres realmente gostam. Se mais músculos não resultam em mais atratividade para o sexo oposto, por que homens heterossexuais empenham-se tanto nisso? A resposta é simples: por causa de sua masculinidade ameaçada. E a maior ameaça está na fraqueza de seus caráteres, não de seus bíceps.

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Referências:

1. Sagoe D et al. The global epidemiology of anabolic-androgenic steroid use: a meta-analysis and meta-regression analysis. Ann Epidemiol. 2014 May;24(5):383-98.
2. AlShareef S et al. StatPearls – Anabolic Steroid Use Disorder. Publicado em 31/07/2021. Acessado em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK538174/
3. Ganesan K et al. StatPearls – Anabolic Steroids. Publicado em 04/06/2021. Acessado em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK482418/
4. Harrison Pope Jr, Katharine A. Philips & Roberto Olivardia. O Complexo de Adônis. Campus (2000).
5. Satatisa. Revenue of the fitness, health and gym club industry in the United States from 2011 to 2021. Acessado em https://www.statista.com/statistics/605223/us-fitness-health-club-market-size-2007-2021/

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