O GOVERNO BOLSONARO E O ACIDENTE COM MÚLTIPLAS VÍTIMAS

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Desde que eu obtive meu diploma, lá no ano jurássico de 1996 depois de Cristo, já trabalhei em diversas áreas da medicina. Mas principalmente, trabalhei com urgência e emergência durante quase 20 anos. Entre esses plantões, durante um bom tempo fiz parte de equipes do SAMU em Belo Horizonte e em São Paulo.

Um dos treinamentos das equipes do SAMU consiste em como prestar atendimento no caso de acidentes com múltiplas vítimas: uma coisa é você atender uma única pessoa atropelada no meio da rua. Outra coisa é estar na cena onde um ônibus desceu por uma ribanceira com 40 pessoas dentro. Nesse caso, a técnica e a abordagem do atendimento muda. O protocolo para tragédias assim se chama Método Start.

O método Start pode parecer frio cruel, mas em uma cena com dezenas de pessoas gravemente feridas, você não tem muito tempo para ficar pensando, e você tem que tomar decisões rápidas e objetivas. Quem vai ser salvo primeiro? Quem vai ser deixado em segundo plano? E em terceiro plano?

Para os atendimentos de múltiplas vítimas, existe uma mochila grande dentro da ambulância do SAMU com alguns pacotes de etiquetas separadas por cores: verde, amarelo, vermelho, cinza e preto.

Então vamos supor que você é o médico do SAMU e chegou lá no ônibus no fundo da ribanceira. O acesso é complicado, tem vidro, cheiro de gasolina, sangue, pessoas gritando e gente gemendo de dor pra todo lado. Você entra com as etiquetas faz um clínico objetivo e classifica as vítimas segundo a gravidade.

Pessoas com ferimentos mínimos, pequenos cortes e escoriações, recebem a cor verde. Se estiverem em condições psicológicas, elas são solicitadas a ajudar na remoção das outras vítimas.  Se estiverem histéricas ou em estado de choque, são rapidamente deslocadas para uma área supervisionada onde não atrapalhem os trabalhos.

Pessoas com fraturas e outros ferimentos moderados recebem uma etiqueta amarela, são retiradas das ferragens e mantidas em uma outra área supervisionada e segura, onde receberão alguns cuidados e terão que ficar aguardando o deslocamento até o hospital de referência, caso a equipe de primeiros socorros seja em número reduzido – o que costuma acontecer, infelizmente.

Pessoas com traumas graves, como fraturas expostas, hemorragias em andamento ou esmagamento de tórax, mas que ainda possuem alguma chance de vida, recebem uma etiqueta vermelha e tratamento imediato. Elas têm preferência no transporte até o hospital.

Pessoas já em processo de agonia são classificadas como cinzas.

E pessoas mortas recebem uma etiqueta preta.

As vítimas com etiquetas amarelas só serão transportadas ao hospital de ambulância ou algum outro veículo apenas DEPOIS que todas as vítimas com etiquetas vermelhas tiverem sido evacuadas. As pessoas com etiquetas verdes só serão transportadas quando as pessoas com etiquetas amarelas tiverem sido removidas. E as pessoas com etiquetas cinzas ou pretas só serão atendidas e removidas DEPOIS que todas as demais tiverem recebido cuidados e levadas do local do acidente.

Se você acha isso tudo muito insensível e desumano, recomendo que você evite fazer medicina ou enfermagem, e que não trabalhe com atendimento pré-hospitalar. Nem todo mundo tem estômago para essas coisas…

Mas o que isso tem a ver com a reforma da previdência e todo o governo Bolsonaro? Se você for minimamente inteligente, a ficha já caiu. Mas vou explicar assim mesmo:

No começo de janeiro de 2019, O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, apresentou as metas consideradas prioritárias pelo governo Jair Bolsonaro nos primeiros 100 dias da nova gestão. Muitas metas foram levadas adiante e estão em operação, como medidas para combate de fraudes no INSS, a redução da máquina administrativa, a facilitação de transações comerciais internacionais, a abertura do cadastro de desempregados para empresas privadas do setor de recrutamento.

O Comitê Interministerial de Combate à Corrupção foi criado e os critérios da Lei da Ficha Limpa já estão sendo aplicados na nomeação de pessoas em cargos em comissão.

O governo leiloou 12 aeroportos, arrecadando 2,3 bilhões de reais; concedeu um trecho da Ferrovia Norte-Sul por outros 2,7 bilhões; e arrecadou 447 milhões com o leilão de 6 terminais portuários.

Durante este tempo, o governo lançou o Plano Nacional para Combate ao Lixo no Mar, e o Conselho Nacional de Política Energética anunciou a aprovação da minuta do termo aditivo, que permite a realização do Leilão do Excedente da Cessão Onerosa. O Decreto que instituiu a Política Nacional de Turismo já resultou em um aumento de 45% no número de turistas canadenses, 24% de turistas Australianos e de 13% no número de turistas que vêm dos Estados Unidos para visitar o Brasil.

Há quase 1 ano, estamos sem um único escândalo de corrupção no Poder Executivo. Em um país que se habituou a ver os disparates mais bizarros, desde roubos descarados do dinheiro público até bolos de dólares escondidos na cueca de assessores de deputados, ficar quase 300 dias sem ouvir falar de escândalos no Poder Executivo é uma novidade sem precedentes.

Porém, porém…

Algumas metas listadas no Plano de Governo não dependiam apenas do poder executivo. Elas necessitavam do aval do Congresso. Como havia sido prometido em sua campanha, o Presidente Bolsonaro implantou um modelo de governo onde ele negocia direto com as bancadas temáticas do Congresso. Este modelo é diferente do modelo anterior, de coalização, em que o Poder Executivo negociava com os caciques dos partidos, oferecendo oferecia ministérios em troca de apoio. Sem a gruja dos ministérios, o Congresso tem feito o que pode para não fazer nada.

Assim, com 15 dias de governo, o presidente assinou um decreto que facilitou a posse de armas. Depois de idas e vindas, o decreto foi rejeitado pelo Senado. E o Senado voltou a trabalhar em uma revisão do Estatuto do Desarmamento. Este projeto, a Lei 3.713/2019, batizada de PL das Armas, encontra-se pronto E PARADO no Senado há mais de 1 mês.

O Projeto Anticrime do Super Ministro Sérgio Moro foi assinado pelo presidente em 19 de fevereiro e encaminhado para a Câmara, onde se encontra em hibernação esplêndida. Mas, pra não dizer que estão dormindo no ponto, os deputados já conseguiram no feito de derrubar o excludente de ilicitude do projeto do Ministro Moro.

O Projeto de Lei que regulamenta a educação domiciliar também foi encaminhado para a Câmara em 17 de abril de 2019. Para ser aprovado, o projeto deve passar por cinco comissões da câmara dos deputados, além de uma comissão especial. Pelas notícias que vêm do Congresso, o projeto deve estar dormindo na mesma gaveta do projeto anticrime.

Enquanto nossos Parlamentares parecem ficar por aí fazendo cara paisagem, e enquanto os ministros no STF acertam a compra de um menu com lagostas e vinhos ao custo de meio milhão de reais, o Presidente Bolsonaro vai tentando se virar com a herança maldita do petismo.

Graças às farras dos governos daqueles sociopatas, o PIB brasileiro deve crescer menos de 1% este ano. Outra herança maldita foi a pobreza: Segundo a propaganda comunista do presidiário de nove dedos, a pobreza havia sido extinta no seu governo paz e amor… Bem, o Brasil tem hoje cerca de 50 milhões de pessoas – um quarto de sua população – vivendo na linha de pobreza, com renda familiar inferior a 387 reais.

A herança do petismo também entregou um Estado que gasta mais do que arrecada. Em 2018, as contas do governo fecharam com uma dívida de 120 bilhões no cheque especial. E mais de 90% dos gastos são obrigatórios, ou seja, são pré-determinados. Não dá pra mexer neles da noite para o dia. A previsão é que em 2020 as despesas obrigatórias fiquem em torno de 94% do Orçamento. Se as medidas necessárias não andarem, isso paralisará a máquina pública já no primeiro orçamento elaborado pela gestão Jair Bolsonaro.

Para completar, nosso país aparece na posição 96 de uma lista de 180 países, sendo visto como mais corrupto que países como Timor Leste, Senegal e Marrocos. É bem complicado investir quando não se tem dinheiro. É bem complicado atrair investidores quando sua capivara tá suja e com uma baita fama de corrupta. É bem complicado gerar riqueza quando a população é pobre e com péssimo nível educacional.

Apesar de todos os esforços do governo, o plano de zerar o déficit das contas públicas ainda no primeiro ano provavelmente não irá acontecer. A burocracia brasileira estrangula a economia, e nosso sistema tributário onera o trabalho formal – o que, por sua vez, estimula a informalidade no país. Agendas como imposto único, déficit primário e privatização são mudanças muito farão o país decolar, mas elas são mudanças paradigmáticas. Elas exigem uma verdadeira mudança na cultura, no jeito de pensar do brasileiro. E exigem atenção, entendimento e apoio da população que apoia o Presidente Bolsonaro. Também é preciso desobrigar, desvincular e desindexar o orçamento.

As questões do governo estão hoje divididas em duas grandes pautas: fazer o Estado gastar menos e estimular as empresas a produzir mais.

Porém, é demais para este momento pensar na possibilidade de uma reforma tributária ao mesmo tempo em que a previdenciária tramita. O risco é criar uma confusão e não passar nada.  Como em um acidente com múltiplas vítimas no SAMU, é preciso definir prioridades. E a aprovação da reforma da Previdência é o gol que define a partida. Pelo menos, a primeira partida.

Mas então eu vejo pessoas fazendo fuzarcas e barulhos em apoio à Lava jato, o que é legítimo, mas desnecessário no momento. A Lava Jato não é uma vítima grave do acidente que estamos presenciando. Até aqui, o paciente Lava Jato se mantêm estável, obrigado. Alguns mosquitos no STF andaram dando uma beliscada na operação, mas nada ainda que justifique os surtos histéricos como o que vimos. Um pouco de maturidade, prudência e inteligência emocional ajudam um bocado na vida, acredite em mim. Suas coronárias irão agradecer o conselho.

Mas então eu vejo outras pessoas, fazendo outra fuzarca e mais barulho por causa da CPI da Lava Toga. A CPI da Lava Toga pode, eu digo PODE resultar na remoção de alguns juízes do STF, mas isso não reduzirá os gastos do governo, nem facilitará a vida dos empresários que geram emprego, não melhorará a qualidade de nossa educação e nem aumentará a produtividade da economia no curto ou médio prazo. A CPI da Lava Toga certamente não é um paciente com uma etiqueta amarela ou vermelha. Não é algo que mereça atenção no meio deste capotamento.

Mas então eu vejo outras pessoas, fazendo outra fuzarca e mais barulho por causa da proposta de emenda constitucional 457/05, também chamada de PEC da Bengala, que foi aprovada em 2015 e se tornou a Emenda Constitucional 88/2015. Essa Emenda ampliou de 70 para 75 anos a idade da aposentadoria compulsória dos juízes dos tribunais superiores do Brasil. Os apoiadores defendem que os ministros do Supremo devem voltar a se aposentar aos 70 e não nos atuais 75 anos. Se isso ocorresse, o Presidente Bolsonaro poderia indicar quatro e não apenas dois ministros do STF em seu mandato. Porém, modificar uma Emenda é o mais rigoroso processo legislativo que há no congresso nacional.

Para mexer em uma Emenda Constitucional é necessário que a proposta seja aprovada em dois turnos, tanto na Câmara quanto no Senado, e em cada uma das apurações com votos favoráveis de três quintos dos parlamentares. Isso envolve muitas negociações e muito diálogo com um número enorme de parlamentares. Isso consome atenção e tempo.

Se você fosse um médico do SAMU tivesse que colocar uma etiqueta nos pacientes que merecem empenho do governo, quais medidas você classificaria com quais cores?

 Enquanto ignoramos o paciente do voto distrital puro, da reforma tributária, das despesas obrigatórias, da reforma da educação, do pacote anticrime, do pacto federativ; e o paciente esmagado pela burocracia, e o paciente da polícia que elucida menos de 10% dos mais de 157 casos de homicídios que ocorrem todo santo dia nesse país; enquanto nós ignoramos o paciente do déficit público e o paciente que quer ser salvo por um emprego; enquanto ignoramos todos esses pacientes nesse acidente de múltiplas vítimas, algumas crianças estão no acostamento brincando de atazanar alguns bois e vacas no pasto.

Fora STF!, elas gritam.

Fora PEC da bengala, elas gritam e jogam pedras, enquanto outras se reúnem para bater palmas para o alazão da Lava Jato que corre firme e forte lá em baixo no descampado.

Mas essas crianças estão equivocadas.

Nossa única razão agora deveria ser o apoio ao Presidente Bolsonaro e suas pautas de reformas e mudanças do país. A pauta do governo que elegemos deve ser ver a nossa bússola e a nossa voz de comando.  O presidente e seu time de ministros deveriam ser os nossos timoneiros. Se perdermos este governo não haverá CPI da lava toga, lava jato, PEC da bengala e nem mais coisa alguma.

Qualquer um que marche para defender outras pautas outras que não sejam aquelas que denotem profundo alinhamento com as etiquetas vermelhas e amarelas do governo ou estão infiltrados para bagunçar tudo ou não tem a menor visão estratégica do contexto geral.

É preciso escolher entre construir castelos no ar ou acordar para a realidade. E eu já aviso: a realidade nunca perdoa.

1 COMENTÁRIO

  1. Texto irretocavel, a comparação foi perfeita.
    Tomara que consigam entender isso pois é bem simples.
    E a genialidade vive na simplicidade.

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